quinta-feira, 8 de março de 2012

Demócrito: "O mundo é composto por átomos"

"O último grande filósofo da natureza chamava-se Demócrito (aproximadamente 460-370 a.C.) e vinha da cidade portuária de Abdera, a norte do Mar Egeu. Se conseguiste responder à pergunta acerca das peças do Lego, não te será difícil compreender o projeto deste filósofo.
Demócrito concordava com os seus predecessores ao afirmar que as transformações observáveis na natureza não significavam que algo se alterasse realmente. Admitiu, portanto, que tudo tinha de ser composto de elementos pequenos e invisíveis, eternos e imutáveis. Demócrito designava estas pequenas partículas por átomos.
O termo "átomo" significa "indivisível". Para Demócrito, era fundamental afirmar que aquilo a partir do qual tudo é formado não pode ser dividido em partes cada vez menores. Se os átomos pudessem ser constantemente divididos em partes cada vez menores, a natureza teria começado a fluir como uma sopa cada vez mais líquida.
Os elementos constitutivos da natureza tinham ainda de se conservar eternamente - porque nada pode nascer do nada. Nisto, Demócrito estava de acordo com Parmênides e os eleatas. Além disso, os átomos eram sólidos e compactos. Mas não podiam ser iguais. Porque se os átomos fossem iguais, não teríamos uma explicação válida para o fato de poderem ser combinados de modo a formarem tudo, desde papoulas e oliveiras à pele de cabra e cabelo humano.
Existe uma quantidade infinita de átomos diferentes na natureza segundo Demócrito. Alguns são redondos e lisos, outros são irregulares e curvos. E precisamente porque têm formas tão diversas, podem ser combinados para formarem corpos completamente diversos. Mesmo sendo numerosos e diferentes, todos são eternos, imutáveis e indivisíveis.
Quando um corpo – por exemplo, uma árvore ou um animal - morre e entra em decomposição, os seus átomos dispersam-se e podem ser utilizados de novo em novos corpos. Os átomos movem-se no espaço vazio e agregam-se para formar as coisas que vemos à nossa volta.
E agora já percebes o que eu queria dizer com as peças do Lego? Elas possuem mais ou menos as propriedades que Demócrito atribuiu aos átomos, e precisamente por isso se pode construir tão bem com elas. Em primeiro lugar, são indivisíveis. São diferentes em forma e em tamanho, são sólidas e impenetráveis.
Além disso, as peças do Lego têm "ganchos", com os quais podem ser encaixadas umas nas outras; por isso podem ser transformadas em todas as figuras possíveis. Esta combinação pode ser mais tarde desfeita e depois construírem-se novos objetos a partir das mesmas peças.
E foi justamente o fato de poderem ser sempre usadas de novo que tornou o Lego tão popular. Uma e a mesma peça de Lego pode fazer hoje parte de um carro, e amanhã de um palácio. Além disso, é possível dizer que as peças do Lego são "imortais". As crianças de hoje podem brincar com as mesmas peças com que os seus pais brincaram quando ainda eram pequenos.
É claro que também podemos construir objetos de barro. Mas o barro nem sempre pode ser reaproveitado, pois se desfaz em partes cada vez menores, até se reduzir a pó. E estas minúsculas partículas de argila não podem ser reunidas para formar novos objetos. Hoje, podemos quase afirmar que a teoria de Demócrito estava certa. A natureza é de fato formada por diversos átomos, que se combinam uns com os outros e se separam de ovo. Um átomo de hidrogênio que está numa célula na extremidade do meu nariz pertenceu, outrora, à tromba de um elefante. Um átomo de carbono do meu miocárdio esteve já na cauda de um dinossauro.
Hoje em dia, a ciência descobriu que os átomos se dividiam em "partículas elementares" ainda menores. A essas partículas elementares chamamos prótons, nêutrons e elétrons. E talvez estas se deixem dividir em partículas ainda menores. Mas os físicos concordam em afirmar que tem de haver um limite. Têm de existir as partículas menores a partir das quais a natureza é formada.
Demócrito não tinha acesso aos aparelhos eletrônicos do nosso tempo. O seu único instrumento era a razão. Mas a razão não lhe deixava nenhuma alternativa. Se aceitarmos que nada se pode alterar, que nada surge do nada e que nada desaparece, nesse caso a natureza tem de ser formada por elementos constitutivos minúsculos que se combinam e se separam uns dos outros.
Demócrito não tinha em conta uma "força" ou um "espírito" que interviesse nos processos naturais. As únicas coisas que existem, segundo ele, são os átomos e o espaço vazio. Dado que ele só acreditava no que é "material", denominamo-lo materialista.
Nos movimentos dos átomos não há uma finalidade consciente. Isso não significa que tudo o que acontece seja ao "acaso", porque tudo segue as leis constantes da natureza. Demócrito achava que tudo o que acontece tem uma causa natural, uma causa que reside nas próprias coisas. Teria dito um dia que preferia descobrir uma lei da natureza a tornar-se rei da Pérsia.
Segundo Demócrito, a teoria atomista esclarecia também as nossas “sensações”. A percepção que temos de alguma coisa deve-se ao movimento dos átomos no vazio. Quando vejo a lua, o que acontece é que os "átomos lunares" atingem o meu olho.
E a “alma”? Não pode ser constituída por átomos, por "coisas" materiais? Para Demócrito a alma era constituída por "átomos de alma" redondos e lisos. Quando um homem morre, os átomos da alma dispersam-se em todas as direções e podem dar vida a outra alma.
Isto significa que o homem não possui uma alma imortal.
Este é um pensamento partilhado hoje por muitas pessoas. Acreditam, como Demócrito, que a alma está ligada ao cérebro, e que não podemos ter nenhuma forma de consciência quando o cérebro se decompõe.
Com a sua teoria atomista, Demócrito pôs um ponto final provisório na filosofia da natureza grega. Estava de acordo com Heráclito quando pensava que, na natureza, tudo flui; porque as formas vêm e vão. Mas por detrás de tudo o que flui, há algo eterno e imutável que não flui: os átomos, segundo Demócrito."

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA

Empédocles: "As quatro raízes da natureza"

"Empédocles (aproximadamente 494-434 a.C.), de Agrigento, haveria de encontrar o caminho para sair do novelo no qual a filosofia se tinha emaranhado. Pensava que tanto Parmênides como Heráclito tinham razão numa das suas afirmações, mas que ambos se enganavam num ponto.
Segundo Empédocles, a grande discórdia baseava-se no fato de os filósofos terem pressuposto que apenas havia um elemento. Se isso fosse verdade, então o abismo entre o que a razão diz e o que recebemos dos sentidos seria intransponível.
A água não se pode transformar em peixe ou em borboleta. A água não se pode transformar de todo. A água pura permanece água pura para toda a eternidade. Parmênides tinha razão em afirmar que nada se transforma. Simultaneamente, Empédocles estava de acordo com Heráclito, dizendo que devemos confiar nas impressões dos sentidos. Temos que acreditar no que vemos, e vemos transformações permanentes na natureza.
Empédocles reconheceu que a idéia de um único elemento primordial tinha de ser rejeitada. Nem a água, nem o ar se podiam transformar numa roseira ou numa borboleta. A natureza não podia ter apenas um elemento constituinte.
Segundo Empédocles a natureza é constituída por quatro elementos primordiais ou "raízes", que identifica com a terra, o ar, o fogo e a água. Todas as transformações da natureza resultam do fato de os quatro elementos se misturarem e se separarem. Tudo é constituído por terra, ar, fogo e água, misturados em proporções variáveis. Quando uma flor ou um animal morrem, os quatro elementos separam-se novamente uns dos outros.
Podemos apercebermo-nos destas transformações a olho nu. Mas a terra, o ar, o fogo e a água permanecem totalmente inalterados ou intactos, apesar de todas as misturas em que estão presentes. Também não é verdade que "tudo" se altera. Basicamente, nada se altera. O que sucede é que quatro elementos diferentes se
misturam e se voltam a separar - para se misturarem novamente no futuro.
Podemos fazer uma comparação com um pintor. Se ele tem apenas uma cor – por exemplo, o vermelho – não pode pintar árvores verdes. Mas se tem amarelo, vermelho, azul e preto, pode pintar centenas de cores
diferentes, porque mistura as cores em proporções diferentes.
Um exemplo da cozinha mostra-nos o mesmo. Se eu tivesse apenas farinha, tinha de ser um ilusionista para fazer um bolo com ela. Mas se tenho ovos e farinha, leite e açúcar, posso criar variados bolos com os quatro elementos de base.
Não foi por acaso que para Empédocles as raízes da natureza eram precisamente a terra, o ar, o fogo e a água. Antes dele, outros filósofos tinham procurado mostrar que o elemento primordial era a terra ou a água ou o ar ou o fogo. Tales e Anaxímenes tinham insistido em que a água e o ar eram elementos importantes na natureza.
Para os Gregos, o fogo também era importante. Por exemplo, viam a importância do Sol em toda a vida da natureza e, obviamente, tinham conhecimento do calor do corpo nos homens e nos animais.
Talvez Empédocles tenha visto arder um pedaço de madeira. Neste caso, há algo que se desagrega. Ouvimo-lo no crepitar da madeira. É a água. Algo se torna fumaça. É o fogo. E vemos claramente o fogo. Quando as chamas se apagam, algo permanece. É a cinza, ou a terra.
Depois de Empédocles ter indicado que as transformações da natureza são produzidas através da mistura e separação das quatro raízes, há ainda uma questão em aberto: qual é a causa pela qual os elementos se unem para que nasça uma nova vida? E o que é que contribui para que a "mistura", uma flor, por exemplo, se desagregue de novo?
Segundo Empédocles, há na natureza duas forças diferentes que nela agem. Designava estas forças por “amor” e “discórdia”. Aquilo que une as coisas é o amor, o que as desagrega é a discórdia.
Empédocles faz uma distinção importante entre elemento e força. É importante notar isto. Ainda hoje, a ciência distingue elementos e forças da natureza. A ciência moderna acredita que todos os processos da natureza se podem explicar como resultado dos vários elementos e algumas forças da natureza.
Empédocles também se dedicou à questão do que acontece quando sentimos algo. Como é que eu posso, por exemplo, "ver" uma flor? Empédocles pensava que os nossos olhos, tal como todas as outras coisas na natureza, são constituídos por terra, ar, fogo e água. Por isso, a terra do meu olho apreende o que é feito de terra no que é visto, o ar apreende o que é feito de ar, o fogo dos olhos apreende o que é feito de fogo, e a água o que é feito de água. Se faltasse no olho um destes elementos, eu não poderia ver toda a natureza."

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA