segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

São Tomás de Aquino


O maior e mais importante filósofo da baixa Idade Média foi “S. Tomás de Aquino”, que viveu entre 1225 e 1274. Era natural da pequena vila de Aquino entre Roma e Nápoles, mas ensinou em Paris. Eu chamo-lhe filósofo, mas ele era igualmente teólogo.

Nessa altura, não havia uma verdadeira separação entre filosofia e teologia. Muito  resumidamente, podemos dizer que S. Tomás "cristianizou" Aristóteles, da mesma forma que Santo Agostinho o fizera com Platão no início da Idade Média.

Por "cristianização" dos dois grandes filósofos gregos entendemos que eles foram interpretados e entendidos de forma a não constituírem uma ameaça para a doutrina cristã. Acerca de S. Tomás de Aquino, diz-se que "agarrou o touro pelos cornos".

 S. Tomás de Aquino fazia parte daqueles que queriam conciliar a filosofia de Aristóteles com o cristianismo. Dizemos que ele realizou a grande síntese entre fé e saber. E conseguiu-o por que partiu da filosofia de Aristóteles e a tomou à letra.

S. Tomás de Aquino não acreditava numa contradição inevitável entre o que a filosofia ou a razão, por um lado, e a revelação cristã ou a fé, por outro, nos dizem.

Freqüentemente, o cristianismo e a filosofia dizem-nos o mesmo. Por isso, podemos examinar com a ajuda da razão as mesmas verdades que lemos na Bíblia.

Não, só podemos ter acesso a essas "verdades de fé" através da fé e da revelação cristã. Mas S. Tomás de Aquino achava que havia também uma série de "verdades teológicas naturais", ou seja, verdades que podem ser alcançadas tanto através da revelação cristã como através da nossa razão inata ou "natural". Uma verdade dessas é, por exemplo, dizer-se que Deus existe. S. Tomás acreditava, portanto, em dois caminhos que levam a Deus. Um dos caminhos passa pela fé e pela revelação, o outro pela razão e pelos sentidos.

Das duas vias, a que passa pela fé e pela revelação é a mais segura, porque podemos facilmente errar se confiarmos apenas na razão. Mas para S. Tomás não é preciso haver nenhuma contradição entre a doutrina cristã e um filósofo como Aristóteles.

Aristóteles só percorre uma parte do caminho, porque não conheceu a revelação cristã. Mas percorrer apenas uma parte do caminho não significa enganar-se. Por exemplo, não é falso dizer que Atenas fica na Europa.

Mas também não é muito preciso. Quando um livro apenas te informa que Atenas é uma cidade européia, devias consultar ainda um atlas. E aí ficas a saber toda a verdade: Atenas é a capital da Grécia, um pequeno país no sudeste da Europa. Se tiveres sorte, talvez fiques ainda a saber alguma coisa sobre a Acrópole. Para não falar de Sócrates, Platão e Aristóteles.

S. Tomás quer mostrar que há apenas uma verdade. Quando Aristóteles apresenta algo que reconhecemos como verdadeiro por intermédio da razão, isso não entra em contradição com a doutrina cristã. Podemos obter uma parte da verdade com a ajuda da razão e da observação – e Aristóteles fala acerca dessas verdades quando, por exemplo, descreve o reino vegetal e o reino animal. Uma segunda parte da verdade foi-nos revelada por Deus através da Bíblia. Mas as duas partes da verdade coincidem em muitos pontos importantes. Há algumas perguntas a que a Bíblia e a razão nos respondem exatamente da mesma maneira.

A filosofia de Aristóteles também pressupunha que Deus existe - ou uma primeira causa que põe em movimento todos os processos naturais. Mas não descreve Deus mais detalhadamente. Aí, temos de nos basear na Bíblia e na mensagem de Jesus.

Mas, ainda hoje, a maior parte das pessoas admitiria que pelo menos a nossa razão não pode provar que Deus não existe. S. Tomás foi mais longe. Acreditava poder provar a existência de Deus com base na filosofia de Aristóteles.

Segundo ele, com a razão também podemos reconhecer que tudo tem de ter uma "primeira causa". Deus, para S. Tomás, revelou-se aos homens por meio da Bíblia e por meio da razão. Logo, há uma teologia "revelada" e uma teologia "natural". O mesmo se passa no domínio da moral. Podemos ler na Bíblia como é que devemos viver segundo a vontade de Deus. Mas Deus também nos dotou de uma consciência que nos habilita a distinguir o justo do injusto numa base "natural". Também existem "duas vias" para a vida moral.

Podemos saber que não devemos maltratar os outros mesmo que não tenhamos lido na Bíblia que devemos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados por eles. Mas, também neste caso, os mandamentos da Bíblia são a norma mais segura.

Mesmo que sejamos cegos, podemos ouvir o trovão. E mesmo que sejamos surdos, podemos ver a trovoada. É óbvio que o melhor é poder ver e ouvir. Mas não há nenhuma contradição entre aquilo que vemos e o que ouvimos. Pelo contrário – as duas impressões enriquecem-se mutuamente.

Se observarmos a natureza, podemos saber que Deus existe. Podemos ver que ele gosta de flores e de animais, de outra forma não os teria criado. Mas só encontramos informações acerca de Deus na Bíblia - ou seja, na autobiografia de Deus.

Como é que S. Tomás de Aquino adotou a filosofia de Aristóteles em todos os domínios que não colidiam com a teologia da Igreja. Isso é válido para a sua lógica, a sua filosofia do conhecimento e ainda para a sua filosofia da natureza.

Ainda te lembras do modo como Aristóteles descreveu uma escala ascendente da vida, desde as plantas e os animais, até ao homem?

Já Aristóteles acreditava que esta escala remetia para um Deus que representava uma espécie de vértice máximo da existência. Este esquema era facilmente adaptável à teologia cristã. S. Tomás acreditava num grau de existência crescente, desde as plantas e os animais até aos homens, dos homens até aos anjos, e dos anjos até Deus. O homem, tal como os animais, possui um corpo com órgãos dos sentidos, mas o homem também possui uma razão que pensa.

Os anjos não têm corpo nem órgãos dos sentidos, mas em vez disso têm uma inteligência direta e imediata. Não precisam de "discorrer", como os homens, não precisam fazer deduções. Sabem tudo o que os homens podem saber, mas não precisam avançar progressivamente às apalpadelas como nós. Uma vez que os anjos não têm corpo, nunca vão morrer.

Não são eternos como Deus, visto que também eles foram criados por Deus, mas não têm um corpo do qual poderiam ser separados, e por isso nunca hão-de morrer. Mas acima dos anjos reina Deus. Ele pode ver e saber tudo numa única visão de conjunto.

Para Deus, o tempo não existe como para nós. O nosso "agora" não é o "agora" de Deus. O fato de passarem algumas semanas para nós não significa que também passem para Deus.

Infelizmente, S. Tomás de Aquino também adotou a concepção aristotélica da mulher. Talvez ainda te lembres que, para Aristóteles, a mulher era uma espécie de homem imperfeito. Ele achava ainda que os filhos apenas herdavam as características do pai, porque a mulher era passiva, enquanto o homem era ativo.

Segundo S. Tomás, estas reflexões estavam de acordo com as palavras da Bíblia – onde está escrito, por exemplo, que a mulher foi criada da costela do homem.

Talvez seja importante acrescentar que os mecanismos de ovulação nos mamíferos só foram descobertos em 1827. Por isso, talvez não fosse de surpreender que o homem fosse considerado aquele que fornece a forma e dá a vida na reprodução. Podemos também notar que para S. Tomás a mulher só era inferior ao homem enquanto criatura física. Para ele, a alma da mulher é tão importante como a do homem.

No céu, há igualdade entre os sexos, muito simplesmente porque já não há diferenças corporais entre os sexos.

Na Idade Média, a Igreja era fortemente dominada pelos homens. Mas isso não significa que não tenha havido pensadoras. Uma delas era “Hildegard von Bingen.

 

Jostein Gaarder  (O MUNDO DE SOFIA Uma Aventura na Filosofia)
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA

Santo Agostinho


Santo Agostinho viveu entre 354 e 430. Na vida deste homem podemos estudar a passagem da Antiguidade tardia ao início da Idade Média.

Santo Agostinho nasceu na vila de Tagaste, no norte de África, mas com dezesseis anos foi estudar em Cartago. Mais tarde, visitou Roma e Milão e passou os últimos anos da sua vida como bispo de Hipona, a trinta ou quarenta quilômetros a oeste de Cartago.

Mas ele não foi sempre cristão. Santo Agostinho conheceu muitas correntes filosóficas e religiosas antes de se converter ao cristianismo.

Durante algum tempo, foi “maniqueu”. Os maniqueus pertenciam a uma seita típica da Antiguidade tardia. Proclamavam uma teoria da salvação em parte religiosa e em parte filosófica. Dividiam o mundo em bem e mal, luz e trevas, espírito e matéria. Através do seu espírito, os homens podiam elevar-se acima do mundo material e deste modo criar a base para a salvação da sua alma. Mas a rigorosa separação entre o bem e o mal não dava descanso a Santo Agostinho. O jovem Agostinho ocupava-se principalmente com aquilo a que costumamos chamar "o problema do mal". Por este problema, devemos entender a questão da origem do mal.

Durante algum tempo, ele foi influenciado pela filosofia estóica, e os estóicos negavam uma separação clara entre o bem e o mal. Mas acima de tudo, Santo Agostinho foi influenciado por uma outra corrente filosófica importante da Antiguidade tardia – o neoplatonismo, que defendia que tudo o que existia era de natureza divina.  

Primeiro que tudo, tornou-se cristão, mas o cristianismo de Santo Agostinho é, em grande parte, influenciado pelo pensamento platônico. E por isso, não há uma ruptura dramática com a filosofia grega quando entramos na Idade Média cristã. Boa parte da filosofia grega foi levada para a nova época por padres da Igreja como Santo Agostinho.

Ele achava-se obviamente cem por cento cristão. Mas não via nenhuma contradição profunda entre o cristianismo e a filosofia platônica. Os paralelismos entre a filosofia de Platão e a doutrina cristã pareciam-lhe tão evidentes que se questionava se Platão não poderia ter conhecido pelo menos partes do Antigo Testamento, o que é  naturalmente muito duvidoso. Podemos, pelo contrário, afirmar que Santo Agostinho "cristianizou" Platão.

Mostrou que há limites para o alcance da razão em questões religiosas. O cristianismo é também um mistério divino ao qual só podemos chegar através da fé. Mas quando acreditarmos no cristianismo, Deus "iluminará" a nossa alma, e então obteremos uma espécie de saber sobrenatural acerca de Deus. O próprio Santo Agostinho sentira que a filosofia não podia ser ilimitada. A sua alma só encontrou descanso quando ele se tornou cristão. "Agitado está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti" escreveu.

Santo Agostinho explica que Deus criou o mundo do nada, e isso é uma idéia bíblica. Os gregos inclinavam-se mais para a idéia de que o mundo existira sempre. Mas, segundo S. Agostinho, antes de Deus ter criado o mundo as "idéias" existiam no pensamento de Deus. Ele atribuiu as idéias eternas a Deus e salvou deste modo a concepção platônica da idéia eterna.

Mas isso também mostra como Santo Agostinho e muitos outros padres da Igreja se esforçaram por conciliar o pensamento grego e o hebraico.  De certo modo, eram cidadãos de duas culturas. Na sua concepção do mal, também recorre ao neoplatonismo. Achava, como Plotino, que o mal consistia na "ausência" de Deus. O mal não tem uma existência própria, é algo que não é, porque a Criação de Deus é apenas boa. O mal surge através da desobediência dos homens, segundo Santo Agostinho. Ou, usando as suas próprias palavras: a "boa vontade" é "obra de Deus", a "má vontade" é a "negação da obra de Deus".

Santo Agostinho explica que entre Deus e o mundo existe um abismo insuperável. Baseia-se no fundamento bíblico e rejeita a teoria de Plotino, segundo a qual tudo é uno. Mas Santo Agostinho também salienta que o homem é um ser espiritual. Possui um corpo material - que pertence ao mundo físico e é corrompido pelos agentes naturais -, mas ele também tem uma alma que pode conhecer Deus.

Segundo Santo Agostinho, toda a geração humana foi condenada após o pecado original. Apesar disso, Deus decidiu que alguns homens deviam ser poupados à condenação eterna.

Mas, nesse ponto, Santo Agostinho nega que o homem tenha direito a criticar Deus. Sustenta o que Paulo escreveu na sua "Epístola aos Romanos": "Ó homem, quem és tu para disputares com Deus? Acaso uma obra também diz a quem a fez: porque é que me fizeste assim? Porventura um oleiro não tem poder para fazer da mesma massa um vaso para bom uso e outro para uso vil?".

Para Santo Agostinho, nenhum homem é digno da salvação de Deus. No entanto, Deus escolheu alguns que devem ser salvos da condenação. Para ele, não é pois um segredo quem é que deve ser salvo e quem é que deve ser condenado. Isso está determinado previamente. Logo, nós somos barro nas mãos de Deus. Estamos completamente dependentes da Sua graça.

Mas Santo Agostinho não retira ao homem a responsabilidade pela sua própria vida.

Segundo o seu ponto de vista, nós devemos viver de modo a podermos saber que pertencemos ao número dos eleitos. Não nega que tenhamos livre arbítrio. Só que Deus já "previu" como é que vamos viver.

Com a teologia de Santo Agostinho afastamo-nos do humanismo de Atenas.

Mas não era Santo Agostinho que dividia a humanidade em dois grupos. Ele baseia-se na doutrina da Bíblia acerca da salvação e da condenação. Na sua grande obra A Cidade de Deus, explica-o mais exatamente.

A expressão "cidade de Deus" ou "reino de Deus" vem da Bíblia e da mensagem de Jesus. Santo Agostinho acreditava que a história trata do modo como o combate entre a "cidade de Deus" e a "cidade terrena" é conduzido. Estas duas cidades não são Estados políticos distintos um do outro. Lutam pelo poder em cada homem. A cidade de Deus está presente na Igreja e a cidade terrena nos Estados políticos - por exemplo, no Império Romano, que começou a desagregar-se precisamente na época de Santo Agostinho. Esta concepção tornou-se cada vez mais evidente à medida que a Igreja e o Estado lutavam pelo poder durante toda a Idade Média.

"Não há salvação fora da Igreja", dizia-se. A cidade de Deus de Santo Agostinho era inclusivamente comparada à Igreja como instituição. Só durante a Reforma, no século XVI, se levantou um protesto contra a idéia de que o homem tinha que percorrer o caminho da Igreja para obter a graça divina.

Também podemos notar que Santo Agostinho foi o primeiro dos nossos filósofos a incluir a história na sua filosofia. A aceitação de um combate entre o bem e o mal não era nada de novo. A novidade em Santo Agostinho é que este combate é disputado na história.

Deste ponto de vista, não encontramos nele muito platonismo. Em vez disso, apoia-se firmemente na concepção linear da história que encontramos no Antigo Testamento. É que para Santo Agostinho Deus precisa de toda a história para erigir a sua "cidade de Deus". A história é necessária para instruir os homens e destruir o mal. Em certo passo, Santo

Agostinho afirma que a providência divina dirige a história da humanidade desde Adão até ao fim da história, tal como a história de um único homem que se vai desenrolando progressivamente desde a infância até à velhice.


Jostein Gaarder  (O MUNDO DE SOFIA Uma Aventura na Filosofia)
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA

Aristóteles - "A concepção da mulher"

Finalmente, temos de dizer algo acerca da opinião de Aristóteles sobre a mulher.
Infelizmente, não era tão animadora como a de Platão. Aristóteles pensava que algo faltava à mulher. Ela é um "homem incompleto". Nareprodução, a mulher é passiva e receptora, enquanto o homem é ativo e doador. Por isso,segundo Aristóteles, a criança herdava apenas as características do homem.Todas as características da criança estavam contidas no sêmen do homem. A mulher é como o terreno que recebe e conserva a semente, enquanto o homem é o próprio"semeador". Ou, dito de uma forma verdadeiramente aristotélica: o homem dá a "forma", a mulher dá a "matéria". É surpreendente e lamentável que um homem tão perspicaz como Aristóteles se pudesse enganar de tal A concepção aristotélica da mulher é particularmente grave porque se tornou predominante durante a Idade Média, e não a de Platão.
Deste modo, também a Igreja herdou uma concepção da mulher para a qual não há justificação nenhuma na Bíblia.

Jostein Gaarder  (O MUNDO DE SOFIA Uma Aventura na Filosofia)
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA

domingo, 27 de maio de 2012

Vídeo - Aristóteles

“Aristóteles” (384-322 a.C.).


Ele foi durante vinte anos aluno na Academia de Platão.

Aristóteles não era um ateniense. Era natural da Macedônia, mas foi para a Academia quando Platão tinha 61 anos. O pai era um médico reconhecido - ou seja, um cientista. Este pano de fundo já nos diz algo sobre o projeto filosófico de Aristóteles.

Aquilo que o interessava acima de tudo era a natureza viva. Não foi apenas o último grande filósofo grego, foi também o primeiro grande biólogo da Europa. Se quisermos formular tudo de um modo um tanto exagerado, podemos dizer que Platão estava tão concentrado nas formas ou "ideias" eternas que mal reparava nas transformações da natureza.

Aristóteles, pelo contrário, interessava-se precisamente pelas transformações – ou aquilo que nós hoje designamos por processos físicos.

Se quisermos exagerar ainda mais, podemos dizer que Platão se afastava do mundo sensível e só distinguia passageiramente aquilo que vemos à nossa volta. (Ele queria sair da caverna! Queria olhar para o eterno mundo das ideias!). Aristóteles fazia exatamente o inverso: dirigia-se à natureza e estudava peixes e rãs, anêmonas e papoulas.

Podes dizer que Platão usou apenas o seu entendimento; Aristóteles, por seu lado, usou também os sentidos.

Até na sua maneira de escrever encontramos claras diferenças. Enquanto Platão era poeta e criador de mitos, os textos de Aristóteles são secos e pormenorizados como uma enciclopédia. Em compensação, na origem de muitas coisas acerca das quais ele escreve, há estudos naturalistas intensivos.

Na Antiguidade são referidos mais de 170 títulos que Aristóteles terá escrito. Hoje, conservam-se 47 textos. Não se trata de livros acabados. A maior parte dos textos de Aristóteles são constituídos por apontamentos para as lições. Mesmo no tempo de Aristóteles, a filosofia era principalmente uma atividade oral. A importância de Aristóteles para a cultura europeia não reside apenas no fato de ele ter criado a linguagem técnica que ainda hoje as diversas ciências utilizam. Ele foi o grande sistemático que fundou e ordenou as diversas ciências.

Como Aristóteles escreveu sobre todas as ciências, vou tratar apenas de algumas das áreas mais importantes.

Dado que falei tanto de Platão, deves saber primeiro como é que Aristóteles argumenta contra a teoria das ideias de Platão. Depois, vamos ver como é que ele concebe a sua própria filosofia da natureza. Aristóteles recapitulou aquilo que os filósofos da natureza antes dele disseram. Vamos ver como é que ele ordena os nossos conceitos e funda a lógica como ciência. Por fim, vou falar ainda um pouco da visão de Aristóteles acerca do homem e da sociedade. Se aceitares estas condições, só precisamos arregaçar as mangas e começar.

“Não há ideias inatas”

Tal como os filósofos anteriores, também Platão queria encontrar algo eterno e imutável no meio de todas as transformações. Deste modo, encontrou as ideias perfeitas, que são superiores ao mundo sensível. Além disso, para Platão, estas ideias eram mais reais do que todos os fenômenos na natureza.

Primeiro, vinha a ideia "cavalo" - em seguida, todos os cavalos do mundo sensível, que galopavam como cópias na parede de uma caverna. Logo, a ideia "galinha" veio antes da galinha e do ovo.

Aristóteles achava que Platão tinha posto tudo às avessas. Estava de acordo com o seu professor em que o cavalo particular "flui", e que nenhum cavalo vive eternamente.

Também estava de acordo em que a forma do cavalo é em si eterna e imutável. Mas a "ideia" cavalo é, para ele, apenas um conceito que nós homens formamos, depois de termos visto um determinado número de cavalos.

Para Aristóteles, a "forma" cavalo consiste nas características do cavalo – diríamos hoje na “espécie” cavalo.

Vou precisar: pela "forma" cavalo, Aristóteles designa aquilo que é comum a todos os cavalos. E neste caso, a imagem da forma do biscoito já não é válida, porque as formas existem independentemente do biscoito particular.

Aristóteles não acreditava que essas formas, por assim dizer, existissem na sua própria prateleira na natureza.

Para Aristóteles, as "formas" residem nas próprias coisas como qualidades específicas das coisas.

Aristóteles também não concorda com Platão em que a ideia "galinha" precede a galinha. Aquilo a que Aristóteles chama a "forma" galinha, reside na forma das qualidades específicas de cada galinha - por exemplo, pôr ovos. Assim, a galinha em si e a "forma" galinha são tão inseparáveis como a alma e o corpo.

Com isto, dissemos basicamente quase tudo acerca da crítica de Aristóteles à teoria das ideias de Platão.

Mas deves notar que estamos a falar de uma mudança drástica no pensamento.

Para Platão, o grau máximo de realidade é o que pensamos com a razão. Para Aristóteles, é igualmente evidente que o grau máximo de realidade é o que percebemos ou sentimos com os sentidos. Segundo Platão, aquilo que vemos à nossa volta na natureza é apenas reflexo de algo que existe no mundo das ideias - e consequentemente na alma do homem.

Aristóteles dizia exatamente o contrário: aquilo que está na alma do homem é apenas reflexo dos objetos da natureza. O mundo real é a natureza, segundo Aristóteles, enquanto

Platão fica preso a uma concepção mítica do mundo que confunde as representações do homem com o mundo real.

Aristóteles aponta para o fato de que nada existe na consciência que não tenha existido primeiro nos sentidos. Platão poderia ter dito que não há nada na natureza que não tenha existido primeiro no mundo das ideias.

Desta forma, Platão duplicou o número de coisas, segundo Aristóteles. Ele explicara o cavalo particular recorrendo à ideia "cavalo".

Que tipo de explicação é esta, Sofia? Isto é, de onde vem a ideia "cavalo"?

Existirá ainda um terceiro cavalo - do qual a ideia "cavalo" é por sua vez apenas uma cópia?

Aristóteles defendia que tudo o que temos em pensamentos e em ideias chegou à nossa consciência através daquilo que vimos e ouvimos. Mas também temos uma razão inata.

Temos uma faculdade inata de ordenar todas as impressões sensíveis em diferentes grupos e classes. Assim nascem conceitos como "pedra", "planta", "animal" e "homem".

Assim surgem os conceitos "cavalo", "lagosta" e "canário".

Aristóteles não negava que o homem tivesse uma razão inata. Muito pelo contrário: para Aristóteles, a razão é precisamente a característica mais importante do homem.

Mas a nossa razão está completamente "vazia" enquanto não sentirmos nada.

Logo, um homem não possui "ideias" inatas.

Platão - "O Estado dos filósofos"


No diálogo “A República”, Platão descreve o Estado ideal, isto é, ele imagina um Estado-modelo – ou aquilo que designamos por "Estado utópico". Resumidamente, podemos dizer que, para Platão, o Estado deve ser governado por filósofos. Toma como ponto de partida o homem individual.
Segundo Platão, o corpo humano é constituído por três partes, a saber: a cabeça, o peito e o abdômen. A cada uma destas partes corresponde uma faculdade. À cabeça corresponde a razão, ao peito a vontade, ao abdômen o prazer ou a concupiscência. A cada uma destas faculdades pertence ainda um ideal ou uma virtude. A razão deve procurar a sabedoria, a vontade deve mostrar coragem, e a concupiscência deve ser refreada, para que o homem possua temperança. Só quando as três partes atuam em consonância temos um homem harmonioso ou íntegro. Na escola, as crianças têm de aprender primeiro a refrear a sua concupiscência, depois é desenvolvida a coragem, e por fim devem desenvolver a razão e adquirir a sabedoria.
Platão imagina um Estado que é organizado exatamente como um homem. Assim como o corpo possui "cabeça", "peito" e "abdômen", o Estado possui soberanos, guardiões (ou soldados) e os comerciantes (grupo ao qual pertencem, além dos comerciantes, os artesãos e os camponeses). Torna-se claro que Platão toma como modelo a ciência médica grega. Assim como um homem são e harmonioso apresenta equilíbrio e temperança, aquilo que caracteriza um Estado justo é o fato de cada um conhecer o seu lugar no todo. Tal como a filosofia de Platão em geral, também a sua filosofia política está impregnada de racionalismo. Decisivo para a criação de um bom Estado é ele ser dirigido com razão.
Tal como a cabeça dirige o corpo, são os filósofos que têm de governar a sociedade. Faço agora uma apresentação resumida da relação entre os três componentes do homem e do Estado:
Homem Estado


Corpo
Cabeça
peito
abdômen

Virtude
Sabedoria
Coragem
temperança

Alma
razão
vontade
concupiscência

Estado
soberano
guardiões
artesãos


O Estado ideal de Platão pode fazer lembrar o antigo sistema indiano de castas, onde cada um tinha a sua função específica para o bem do todo. Desde o tempo de Platão e ainda antes – o sistema indiano de castas conhece exatamente esta tripartição entre a casta governante (ou a casta dos sacerdotes), a casta guerreira e a casta dos artesãos.

Hoje diríamos talvez que o Estado de Platão é um Estado totalitário. Devemos reparar que ele era da opinião de que as mulheres poderiam governar o Estado tal como os homens, precisamente porque os soberanos devem governar a cidade-estado em função da sua razão. Segundo Platão, as mulheres tinham tanta racionalidade como os homens, se recebessem a mesma formação, e se fossem ainda libertadas do cuidado das crianças e das tarefas domésticas. Platão queria abolir nos soberanos e nos seus guardiões a família e a propriedade privada. A formação das crianças era demasiado importante para ser deixada aos indivíduos. A educação das crianças tinha de estar a cargo do Estado. (Platão foi o primeiro filósofo que se pronunciou a favor de jardins infantis e escolas públicas).

Depois de ter tido algumas desilusões políticas, Platão escreveu o diálogo “As Leis”. Descreve nele o "Estado de lei" como o segundo melhor Estado e introduz de novo a propriedade privada e os laços familiares. Desta forma, a liberdade das mulheres é restringida. Mas ele diz também que um Estado que não educa e forma mulheres é como um homem que apenas exercita o seu braço direito.

Podemos basicamente dizer que Platão tinha uma opinião positiva das mulheres – pelo menos para o seu tempo. No diálogo “O Banquete” é uma mulher, Diotima, que revela a Sócrates o seu saber filosófico.