segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

São Tomás de Aquino


O maior e mais importante filósofo da baixa Idade Média foi “S. Tomás de Aquino”, que viveu entre 1225 e 1274. Era natural da pequena vila de Aquino entre Roma e Nápoles, mas ensinou em Paris. Eu chamo-lhe filósofo, mas ele era igualmente teólogo.

Nessa altura, não havia uma verdadeira separação entre filosofia e teologia. Muito  resumidamente, podemos dizer que S. Tomás "cristianizou" Aristóteles, da mesma forma que Santo Agostinho o fizera com Platão no início da Idade Média.

Por "cristianização" dos dois grandes filósofos gregos entendemos que eles foram interpretados e entendidos de forma a não constituírem uma ameaça para a doutrina cristã. Acerca de S. Tomás de Aquino, diz-se que "agarrou o touro pelos cornos".

 S. Tomás de Aquino fazia parte daqueles que queriam conciliar a filosofia de Aristóteles com o cristianismo. Dizemos que ele realizou a grande síntese entre fé e saber. E conseguiu-o por que partiu da filosofia de Aristóteles e a tomou à letra.

S. Tomás de Aquino não acreditava numa contradição inevitável entre o que a filosofia ou a razão, por um lado, e a revelação cristã ou a fé, por outro, nos dizem.

Freqüentemente, o cristianismo e a filosofia dizem-nos o mesmo. Por isso, podemos examinar com a ajuda da razão as mesmas verdades que lemos na Bíblia.

Não, só podemos ter acesso a essas "verdades de fé" através da fé e da revelação cristã. Mas S. Tomás de Aquino achava que havia também uma série de "verdades teológicas naturais", ou seja, verdades que podem ser alcançadas tanto através da revelação cristã como através da nossa razão inata ou "natural". Uma verdade dessas é, por exemplo, dizer-se que Deus existe. S. Tomás acreditava, portanto, em dois caminhos que levam a Deus. Um dos caminhos passa pela fé e pela revelação, o outro pela razão e pelos sentidos.

Das duas vias, a que passa pela fé e pela revelação é a mais segura, porque podemos facilmente errar se confiarmos apenas na razão. Mas para S. Tomás não é preciso haver nenhuma contradição entre a doutrina cristã e um filósofo como Aristóteles.

Aristóteles só percorre uma parte do caminho, porque não conheceu a revelação cristã. Mas percorrer apenas uma parte do caminho não significa enganar-se. Por exemplo, não é falso dizer que Atenas fica na Europa.

Mas também não é muito preciso. Quando um livro apenas te informa que Atenas é uma cidade européia, devias consultar ainda um atlas. E aí ficas a saber toda a verdade: Atenas é a capital da Grécia, um pequeno país no sudeste da Europa. Se tiveres sorte, talvez fiques ainda a saber alguma coisa sobre a Acrópole. Para não falar de Sócrates, Platão e Aristóteles.

S. Tomás quer mostrar que há apenas uma verdade. Quando Aristóteles apresenta algo que reconhecemos como verdadeiro por intermédio da razão, isso não entra em contradição com a doutrina cristã. Podemos obter uma parte da verdade com a ajuda da razão e da observação – e Aristóteles fala acerca dessas verdades quando, por exemplo, descreve o reino vegetal e o reino animal. Uma segunda parte da verdade foi-nos revelada por Deus através da Bíblia. Mas as duas partes da verdade coincidem em muitos pontos importantes. Há algumas perguntas a que a Bíblia e a razão nos respondem exatamente da mesma maneira.

A filosofia de Aristóteles também pressupunha que Deus existe - ou uma primeira causa que põe em movimento todos os processos naturais. Mas não descreve Deus mais detalhadamente. Aí, temos de nos basear na Bíblia e na mensagem de Jesus.

Mas, ainda hoje, a maior parte das pessoas admitiria que pelo menos a nossa razão não pode provar que Deus não existe. S. Tomás foi mais longe. Acreditava poder provar a existência de Deus com base na filosofia de Aristóteles.

Segundo ele, com a razão também podemos reconhecer que tudo tem de ter uma "primeira causa". Deus, para S. Tomás, revelou-se aos homens por meio da Bíblia e por meio da razão. Logo, há uma teologia "revelada" e uma teologia "natural". O mesmo se passa no domínio da moral. Podemos ler na Bíblia como é que devemos viver segundo a vontade de Deus. Mas Deus também nos dotou de uma consciência que nos habilita a distinguir o justo do injusto numa base "natural". Também existem "duas vias" para a vida moral.

Podemos saber que não devemos maltratar os outros mesmo que não tenhamos lido na Bíblia que devemos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados por eles. Mas, também neste caso, os mandamentos da Bíblia são a norma mais segura.

Mesmo que sejamos cegos, podemos ouvir o trovão. E mesmo que sejamos surdos, podemos ver a trovoada. É óbvio que o melhor é poder ver e ouvir. Mas não há nenhuma contradição entre aquilo que vemos e o que ouvimos. Pelo contrário – as duas impressões enriquecem-se mutuamente.

Se observarmos a natureza, podemos saber que Deus existe. Podemos ver que ele gosta de flores e de animais, de outra forma não os teria criado. Mas só encontramos informações acerca de Deus na Bíblia - ou seja, na autobiografia de Deus.

Como é que S. Tomás de Aquino adotou a filosofia de Aristóteles em todos os domínios que não colidiam com a teologia da Igreja. Isso é válido para a sua lógica, a sua filosofia do conhecimento e ainda para a sua filosofia da natureza.

Ainda te lembras do modo como Aristóteles descreveu uma escala ascendente da vida, desde as plantas e os animais, até ao homem?

Já Aristóteles acreditava que esta escala remetia para um Deus que representava uma espécie de vértice máximo da existência. Este esquema era facilmente adaptável à teologia cristã. S. Tomás acreditava num grau de existência crescente, desde as plantas e os animais até aos homens, dos homens até aos anjos, e dos anjos até Deus. O homem, tal como os animais, possui um corpo com órgãos dos sentidos, mas o homem também possui uma razão que pensa.

Os anjos não têm corpo nem órgãos dos sentidos, mas em vez disso têm uma inteligência direta e imediata. Não precisam de "discorrer", como os homens, não precisam fazer deduções. Sabem tudo o que os homens podem saber, mas não precisam avançar progressivamente às apalpadelas como nós. Uma vez que os anjos não têm corpo, nunca vão morrer.

Não são eternos como Deus, visto que também eles foram criados por Deus, mas não têm um corpo do qual poderiam ser separados, e por isso nunca hão-de morrer. Mas acima dos anjos reina Deus. Ele pode ver e saber tudo numa única visão de conjunto.

Para Deus, o tempo não existe como para nós. O nosso "agora" não é o "agora" de Deus. O fato de passarem algumas semanas para nós não significa que também passem para Deus.

Infelizmente, S. Tomás de Aquino também adotou a concepção aristotélica da mulher. Talvez ainda te lembres que, para Aristóteles, a mulher era uma espécie de homem imperfeito. Ele achava ainda que os filhos apenas herdavam as características do pai, porque a mulher era passiva, enquanto o homem era ativo.

Segundo S. Tomás, estas reflexões estavam de acordo com as palavras da Bíblia – onde está escrito, por exemplo, que a mulher foi criada da costela do homem.

Talvez seja importante acrescentar que os mecanismos de ovulação nos mamíferos só foram descobertos em 1827. Por isso, talvez não fosse de surpreender que o homem fosse considerado aquele que fornece a forma e dá a vida na reprodução. Podemos também notar que para S. Tomás a mulher só era inferior ao homem enquanto criatura física. Para ele, a alma da mulher é tão importante como a do homem.

No céu, há igualdade entre os sexos, muito simplesmente porque já não há diferenças corporais entre os sexos.

Na Idade Média, a Igreja era fortemente dominada pelos homens. Mas isso não significa que não tenha havido pensadoras. Uma delas era “Hildegard von Bingen.

 

Jostein Gaarder  (O MUNDO DE SOFIA Uma Aventura na Filosofia)
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA

Santo Agostinho


Santo Agostinho viveu entre 354 e 430. Na vida deste homem podemos estudar a passagem da Antiguidade tardia ao início da Idade Média.

Santo Agostinho nasceu na vila de Tagaste, no norte de África, mas com dezesseis anos foi estudar em Cartago. Mais tarde, visitou Roma e Milão e passou os últimos anos da sua vida como bispo de Hipona, a trinta ou quarenta quilômetros a oeste de Cartago.

Mas ele não foi sempre cristão. Santo Agostinho conheceu muitas correntes filosóficas e religiosas antes de se converter ao cristianismo.

Durante algum tempo, foi “maniqueu”. Os maniqueus pertenciam a uma seita típica da Antiguidade tardia. Proclamavam uma teoria da salvação em parte religiosa e em parte filosófica. Dividiam o mundo em bem e mal, luz e trevas, espírito e matéria. Através do seu espírito, os homens podiam elevar-se acima do mundo material e deste modo criar a base para a salvação da sua alma. Mas a rigorosa separação entre o bem e o mal não dava descanso a Santo Agostinho. O jovem Agostinho ocupava-se principalmente com aquilo a que costumamos chamar "o problema do mal". Por este problema, devemos entender a questão da origem do mal.

Durante algum tempo, ele foi influenciado pela filosofia estóica, e os estóicos negavam uma separação clara entre o bem e o mal. Mas acima de tudo, Santo Agostinho foi influenciado por uma outra corrente filosófica importante da Antiguidade tardia – o neoplatonismo, que defendia que tudo o que existia era de natureza divina.  

Primeiro que tudo, tornou-se cristão, mas o cristianismo de Santo Agostinho é, em grande parte, influenciado pelo pensamento platônico. E por isso, não há uma ruptura dramática com a filosofia grega quando entramos na Idade Média cristã. Boa parte da filosofia grega foi levada para a nova época por padres da Igreja como Santo Agostinho.

Ele achava-se obviamente cem por cento cristão. Mas não via nenhuma contradição profunda entre o cristianismo e a filosofia platônica. Os paralelismos entre a filosofia de Platão e a doutrina cristã pareciam-lhe tão evidentes que se questionava se Platão não poderia ter conhecido pelo menos partes do Antigo Testamento, o que é  naturalmente muito duvidoso. Podemos, pelo contrário, afirmar que Santo Agostinho "cristianizou" Platão.

Mostrou que há limites para o alcance da razão em questões religiosas. O cristianismo é também um mistério divino ao qual só podemos chegar através da fé. Mas quando acreditarmos no cristianismo, Deus "iluminará" a nossa alma, e então obteremos uma espécie de saber sobrenatural acerca de Deus. O próprio Santo Agostinho sentira que a filosofia não podia ser ilimitada. A sua alma só encontrou descanso quando ele se tornou cristão. "Agitado está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti" escreveu.

Santo Agostinho explica que Deus criou o mundo do nada, e isso é uma idéia bíblica. Os gregos inclinavam-se mais para a idéia de que o mundo existira sempre. Mas, segundo S. Agostinho, antes de Deus ter criado o mundo as "idéias" existiam no pensamento de Deus. Ele atribuiu as idéias eternas a Deus e salvou deste modo a concepção platônica da idéia eterna.

Mas isso também mostra como Santo Agostinho e muitos outros padres da Igreja se esforçaram por conciliar o pensamento grego e o hebraico.  De certo modo, eram cidadãos de duas culturas. Na sua concepção do mal, também recorre ao neoplatonismo. Achava, como Plotino, que o mal consistia na "ausência" de Deus. O mal não tem uma existência própria, é algo que não é, porque a Criação de Deus é apenas boa. O mal surge através da desobediência dos homens, segundo Santo Agostinho. Ou, usando as suas próprias palavras: a "boa vontade" é "obra de Deus", a "má vontade" é a "negação da obra de Deus".

Santo Agostinho explica que entre Deus e o mundo existe um abismo insuperável. Baseia-se no fundamento bíblico e rejeita a teoria de Plotino, segundo a qual tudo é uno. Mas Santo Agostinho também salienta que o homem é um ser espiritual. Possui um corpo material - que pertence ao mundo físico e é corrompido pelos agentes naturais -, mas ele também tem uma alma que pode conhecer Deus.

Segundo Santo Agostinho, toda a geração humana foi condenada após o pecado original. Apesar disso, Deus decidiu que alguns homens deviam ser poupados à condenação eterna.

Mas, nesse ponto, Santo Agostinho nega que o homem tenha direito a criticar Deus. Sustenta o que Paulo escreveu na sua "Epístola aos Romanos": "Ó homem, quem és tu para disputares com Deus? Acaso uma obra também diz a quem a fez: porque é que me fizeste assim? Porventura um oleiro não tem poder para fazer da mesma massa um vaso para bom uso e outro para uso vil?".

Para Santo Agostinho, nenhum homem é digno da salvação de Deus. No entanto, Deus escolheu alguns que devem ser salvos da condenação. Para ele, não é pois um segredo quem é que deve ser salvo e quem é que deve ser condenado. Isso está determinado previamente. Logo, nós somos barro nas mãos de Deus. Estamos completamente dependentes da Sua graça.

Mas Santo Agostinho não retira ao homem a responsabilidade pela sua própria vida.

Segundo o seu ponto de vista, nós devemos viver de modo a podermos saber que pertencemos ao número dos eleitos. Não nega que tenhamos livre arbítrio. Só que Deus já "previu" como é que vamos viver.

Com a teologia de Santo Agostinho afastamo-nos do humanismo de Atenas.

Mas não era Santo Agostinho que dividia a humanidade em dois grupos. Ele baseia-se na doutrina da Bíblia acerca da salvação e da condenação. Na sua grande obra A Cidade de Deus, explica-o mais exatamente.

A expressão "cidade de Deus" ou "reino de Deus" vem da Bíblia e da mensagem de Jesus. Santo Agostinho acreditava que a história trata do modo como o combate entre a "cidade de Deus" e a "cidade terrena" é conduzido. Estas duas cidades não são Estados políticos distintos um do outro. Lutam pelo poder em cada homem. A cidade de Deus está presente na Igreja e a cidade terrena nos Estados políticos - por exemplo, no Império Romano, que começou a desagregar-se precisamente na época de Santo Agostinho. Esta concepção tornou-se cada vez mais evidente à medida que a Igreja e o Estado lutavam pelo poder durante toda a Idade Média.

"Não há salvação fora da Igreja", dizia-se. A cidade de Deus de Santo Agostinho era inclusivamente comparada à Igreja como instituição. Só durante a Reforma, no século XVI, se levantou um protesto contra a idéia de que o homem tinha que percorrer o caminho da Igreja para obter a graça divina.

Também podemos notar que Santo Agostinho foi o primeiro dos nossos filósofos a incluir a história na sua filosofia. A aceitação de um combate entre o bem e o mal não era nada de novo. A novidade em Santo Agostinho é que este combate é disputado na história.

Deste ponto de vista, não encontramos nele muito platonismo. Em vez disso, apoia-se firmemente na concepção linear da história que encontramos no Antigo Testamento. É que para Santo Agostinho Deus precisa de toda a história para erigir a sua "cidade de Deus". A história é necessária para instruir os homens e destruir o mal. Em certo passo, Santo

Agostinho afirma que a providência divina dirige a história da humanidade desde Adão até ao fim da história, tal como a história de um único homem que se vai desenrolando progressivamente desde a infância até à velhice.


Jostein Gaarder  (O MUNDO DE SOFIA Uma Aventura na Filosofia)
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA

Aristóteles - "A concepção da mulher"

Finalmente, temos de dizer algo acerca da opinião de Aristóteles sobre a mulher.
Infelizmente, não era tão animadora como a de Platão. Aristóteles pensava que algo faltava à mulher. Ela é um "homem incompleto". Nareprodução, a mulher é passiva e receptora, enquanto o homem é ativo e doador. Por isso,segundo Aristóteles, a criança herdava apenas as características do homem.Todas as características da criança estavam contidas no sêmen do homem. A mulher é como o terreno que recebe e conserva a semente, enquanto o homem é o próprio"semeador". Ou, dito de uma forma verdadeiramente aristotélica: o homem dá a "forma", a mulher dá a "matéria". É surpreendente e lamentável que um homem tão perspicaz como Aristóteles se pudesse enganar de tal A concepção aristotélica da mulher é particularmente grave porque se tornou predominante durante a Idade Média, e não a de Platão.
Deste modo, também a Igreja herdou uma concepção da mulher para a qual não há justificação nenhuma na Bíblia.

Jostein Gaarder  (O MUNDO DE SOFIA Uma Aventura na Filosofia)
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA

domingo, 27 de maio de 2012

Vídeo - Aristóteles

“Aristóteles” (384-322 a.C.).


Ele foi durante vinte anos aluno na Academia de Platão.

Aristóteles não era um ateniense. Era natural da Macedônia, mas foi para a Academia quando Platão tinha 61 anos. O pai era um médico reconhecido - ou seja, um cientista. Este pano de fundo já nos diz algo sobre o projeto filosófico de Aristóteles.

Aquilo que o interessava acima de tudo era a natureza viva. Não foi apenas o último grande filósofo grego, foi também o primeiro grande biólogo da Europa. Se quisermos formular tudo de um modo um tanto exagerado, podemos dizer que Platão estava tão concentrado nas formas ou "ideias" eternas que mal reparava nas transformações da natureza.

Aristóteles, pelo contrário, interessava-se precisamente pelas transformações – ou aquilo que nós hoje designamos por processos físicos.

Se quisermos exagerar ainda mais, podemos dizer que Platão se afastava do mundo sensível e só distinguia passageiramente aquilo que vemos à nossa volta. (Ele queria sair da caverna! Queria olhar para o eterno mundo das ideias!). Aristóteles fazia exatamente o inverso: dirigia-se à natureza e estudava peixes e rãs, anêmonas e papoulas.

Podes dizer que Platão usou apenas o seu entendimento; Aristóteles, por seu lado, usou também os sentidos.

Até na sua maneira de escrever encontramos claras diferenças. Enquanto Platão era poeta e criador de mitos, os textos de Aristóteles são secos e pormenorizados como uma enciclopédia. Em compensação, na origem de muitas coisas acerca das quais ele escreve, há estudos naturalistas intensivos.

Na Antiguidade são referidos mais de 170 títulos que Aristóteles terá escrito. Hoje, conservam-se 47 textos. Não se trata de livros acabados. A maior parte dos textos de Aristóteles são constituídos por apontamentos para as lições. Mesmo no tempo de Aristóteles, a filosofia era principalmente uma atividade oral. A importância de Aristóteles para a cultura europeia não reside apenas no fato de ele ter criado a linguagem técnica que ainda hoje as diversas ciências utilizam. Ele foi o grande sistemático que fundou e ordenou as diversas ciências.

Como Aristóteles escreveu sobre todas as ciências, vou tratar apenas de algumas das áreas mais importantes.

Dado que falei tanto de Platão, deves saber primeiro como é que Aristóteles argumenta contra a teoria das ideias de Platão. Depois, vamos ver como é que ele concebe a sua própria filosofia da natureza. Aristóteles recapitulou aquilo que os filósofos da natureza antes dele disseram. Vamos ver como é que ele ordena os nossos conceitos e funda a lógica como ciência. Por fim, vou falar ainda um pouco da visão de Aristóteles acerca do homem e da sociedade. Se aceitares estas condições, só precisamos arregaçar as mangas e começar.

“Não há ideias inatas”

Tal como os filósofos anteriores, também Platão queria encontrar algo eterno e imutável no meio de todas as transformações. Deste modo, encontrou as ideias perfeitas, que são superiores ao mundo sensível. Além disso, para Platão, estas ideias eram mais reais do que todos os fenômenos na natureza.

Primeiro, vinha a ideia "cavalo" - em seguida, todos os cavalos do mundo sensível, que galopavam como cópias na parede de uma caverna. Logo, a ideia "galinha" veio antes da galinha e do ovo.

Aristóteles achava que Platão tinha posto tudo às avessas. Estava de acordo com o seu professor em que o cavalo particular "flui", e que nenhum cavalo vive eternamente.

Também estava de acordo em que a forma do cavalo é em si eterna e imutável. Mas a "ideia" cavalo é, para ele, apenas um conceito que nós homens formamos, depois de termos visto um determinado número de cavalos.

Para Aristóteles, a "forma" cavalo consiste nas características do cavalo – diríamos hoje na “espécie” cavalo.

Vou precisar: pela "forma" cavalo, Aristóteles designa aquilo que é comum a todos os cavalos. E neste caso, a imagem da forma do biscoito já não é válida, porque as formas existem independentemente do biscoito particular.

Aristóteles não acreditava que essas formas, por assim dizer, existissem na sua própria prateleira na natureza.

Para Aristóteles, as "formas" residem nas próprias coisas como qualidades específicas das coisas.

Aristóteles também não concorda com Platão em que a ideia "galinha" precede a galinha. Aquilo a que Aristóteles chama a "forma" galinha, reside na forma das qualidades específicas de cada galinha - por exemplo, pôr ovos. Assim, a galinha em si e a "forma" galinha são tão inseparáveis como a alma e o corpo.

Com isto, dissemos basicamente quase tudo acerca da crítica de Aristóteles à teoria das ideias de Platão.

Mas deves notar que estamos a falar de uma mudança drástica no pensamento.

Para Platão, o grau máximo de realidade é o que pensamos com a razão. Para Aristóteles, é igualmente evidente que o grau máximo de realidade é o que percebemos ou sentimos com os sentidos. Segundo Platão, aquilo que vemos à nossa volta na natureza é apenas reflexo de algo que existe no mundo das ideias - e consequentemente na alma do homem.

Aristóteles dizia exatamente o contrário: aquilo que está na alma do homem é apenas reflexo dos objetos da natureza. O mundo real é a natureza, segundo Aristóteles, enquanto

Platão fica preso a uma concepção mítica do mundo que confunde as representações do homem com o mundo real.

Aristóteles aponta para o fato de que nada existe na consciência que não tenha existido primeiro nos sentidos. Platão poderia ter dito que não há nada na natureza que não tenha existido primeiro no mundo das ideias.

Desta forma, Platão duplicou o número de coisas, segundo Aristóteles. Ele explicara o cavalo particular recorrendo à ideia "cavalo".

Que tipo de explicação é esta, Sofia? Isto é, de onde vem a ideia "cavalo"?

Existirá ainda um terceiro cavalo - do qual a ideia "cavalo" é por sua vez apenas uma cópia?

Aristóteles defendia que tudo o que temos em pensamentos e em ideias chegou à nossa consciência através daquilo que vimos e ouvimos. Mas também temos uma razão inata.

Temos uma faculdade inata de ordenar todas as impressões sensíveis em diferentes grupos e classes. Assim nascem conceitos como "pedra", "planta", "animal" e "homem".

Assim surgem os conceitos "cavalo", "lagosta" e "canário".

Aristóteles não negava que o homem tivesse uma razão inata. Muito pelo contrário: para Aristóteles, a razão é precisamente a característica mais importante do homem.

Mas a nossa razão está completamente "vazia" enquanto não sentirmos nada.

Logo, um homem não possui "ideias" inatas.

Platão - "O Estado dos filósofos"


No diálogo “A República”, Platão descreve o Estado ideal, isto é, ele imagina um Estado-modelo – ou aquilo que designamos por "Estado utópico". Resumidamente, podemos dizer que, para Platão, o Estado deve ser governado por filósofos. Toma como ponto de partida o homem individual.
Segundo Platão, o corpo humano é constituído por três partes, a saber: a cabeça, o peito e o abdômen. A cada uma destas partes corresponde uma faculdade. À cabeça corresponde a razão, ao peito a vontade, ao abdômen o prazer ou a concupiscência. A cada uma destas faculdades pertence ainda um ideal ou uma virtude. A razão deve procurar a sabedoria, a vontade deve mostrar coragem, e a concupiscência deve ser refreada, para que o homem possua temperança. Só quando as três partes atuam em consonância temos um homem harmonioso ou íntegro. Na escola, as crianças têm de aprender primeiro a refrear a sua concupiscência, depois é desenvolvida a coragem, e por fim devem desenvolver a razão e adquirir a sabedoria.
Platão imagina um Estado que é organizado exatamente como um homem. Assim como o corpo possui "cabeça", "peito" e "abdômen", o Estado possui soberanos, guardiões (ou soldados) e os comerciantes (grupo ao qual pertencem, além dos comerciantes, os artesãos e os camponeses). Torna-se claro que Platão toma como modelo a ciência médica grega. Assim como um homem são e harmonioso apresenta equilíbrio e temperança, aquilo que caracteriza um Estado justo é o fato de cada um conhecer o seu lugar no todo. Tal como a filosofia de Platão em geral, também a sua filosofia política está impregnada de racionalismo. Decisivo para a criação de um bom Estado é ele ser dirigido com razão.
Tal como a cabeça dirige o corpo, são os filósofos que têm de governar a sociedade. Faço agora uma apresentação resumida da relação entre os três componentes do homem e do Estado:
Homem Estado


Corpo
Cabeça
peito
abdômen

Virtude
Sabedoria
Coragem
temperança

Alma
razão
vontade
concupiscência

Estado
soberano
guardiões
artesãos


O Estado ideal de Platão pode fazer lembrar o antigo sistema indiano de castas, onde cada um tinha a sua função específica para o bem do todo. Desde o tempo de Platão e ainda antes – o sistema indiano de castas conhece exatamente esta tripartição entre a casta governante (ou a casta dos sacerdotes), a casta guerreira e a casta dos artesãos.

Hoje diríamos talvez que o Estado de Platão é um Estado totalitário. Devemos reparar que ele era da opinião de que as mulheres poderiam governar o Estado tal como os homens, precisamente porque os soberanos devem governar a cidade-estado em função da sua razão. Segundo Platão, as mulheres tinham tanta racionalidade como os homens, se recebessem a mesma formação, e se fossem ainda libertadas do cuidado das crianças e das tarefas domésticas. Platão queria abolir nos soberanos e nos seus guardiões a família e a propriedade privada. A formação das crianças era demasiado importante para ser deixada aos indivíduos. A educação das crianças tinha de estar a cargo do Estado. (Platão foi o primeiro filósofo que se pronunciou a favor de jardins infantis e escolas públicas).

Depois de ter tido algumas desilusões políticas, Platão escreveu o diálogo “As Leis”. Descreve nele o "Estado de lei" como o segundo melhor Estado e introduz de novo a propriedade privada e os laços familiares. Desta forma, a liberdade das mulheres é restringida. Mas ele diz também que um Estado que não educa e forma mulheres é como um homem que apenas exercita o seu braço direito.

Podemos basicamente dizer que Platão tinha uma opinião positiva das mulheres – pelo menos para o seu tempo. No diálogo “O Banquete” é uma mulher, Diotima, que revela a Sócrates o seu saber filosófico.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Platão - “O mundo das idéias”


Empédocles e Demócrito já tinham mostrado que todos os fenômenos na natureza "fluem", mas que apesar disso há "algo" que nunca se transforma (as "quatro raízes" ou os "átomos"). Platão confronta-se igualmente com esta problemática - mas de uma forma completamente diferente.
Platão achava que tudo o que podemos tocar e sentir na natureza "flui". Não há, portanto, nenhum elemento eterno. Tudo o que pertence ao "mundo sensível" é composto por uma matéria que o tempo consome. Mas ao mesmo tempo, tudo é constituído por uma forma intemporal que é eterna e imutável.
Porque é que os cavalos são iguais? Talvez penses que eles não o são de todo. Mas há algo que é comum a todos os cavalos, algo que permite que nunca tenhamos problemas em reconhecer um cavalo.
Um cavalo particular "flui", obviamente. Pode ser velho e coxo, com o tempo ficará também doente, e morre. Mas a verdadeira "forma de cavalo" é eterna e imutável. Assim, o eterno e imutável não é nenhum "elemento primordial". O eterno e o imutável são modelos espirituais ou abstratos, a partir dos quais se formam todos os fenômenos. 
Vou ser mais preciso: os pré-socráticos tinham dado uma explicação verdadeiramente útil para as transformações na natureza, sem ter que pressupor que algo se "transforma" efetivamente. Na natureza há partículas minúsculas, eternas e constantes que não entram em desagregação, segundo eles. Pois bem! Mas não tinham nenhuma explicação aceitável para o modo como estas partículas minúsculas que eram elementos constituintes de um cavalo podiam produzir quatro ou cinco séculos mais tarde um cavalo totalmente novo! Ou talvez um elefante, ou um crocodilo. Platão quer dizer que os átomos de Demócrito nunca se podem tornar um "crocofonte" ou um "eledilo". E foi precisamente este o ponto de partida das suas reflexões filosóficas.
Imaginemos agora que cais do espaço sideral para a terra e que nunca tinhas visto uma padaria. Deparas com uma padaria atraente - e vês, num tabuleiro, cinqüenta biscoitos em forma de homem, exatamente iguais. Calculo que coçarias a cabeça e te questionarias como é que podiam ser todos exatamente iguais. É fácil de imaginar que a um falta um braço, um outro perdeu talvez um bocado da cabeça, e o terceiro tem uma barriga demasiado gorda. Mas depois de uma reflexão fundada chegas à conclusão de que todos os biscoitos possuem um denominador comum. Apesar de nenhum deles ser totalmente perfeito, tens a idéia de que têm que ter uma origem comum. Compreendes que todos os biscoitos foram feitos a partir de uma mesma forma.
Se resolveste este problema sozinho, resolveste um problema filosófico exatamente da mesma forma que Platão. Como a maior parte dos filósofos, ele "caiu do espaço sideral", por assim dizer. (Ele instalou-se na parte mais alta de um dos pêlos finos da pelagem do coelho). Ele admirou-se como todos os fenômenos na natureza podem ser tão semelhantes entre si, e chegou então à conclusão de que "acima" ou "por detrás" de tudo o que vemos à nossa volta há um número limitado de formas. A estas formas chamou Platão idéias. Por detrás de todos os cavalos, porcos e homens há a "idéia cavalo", a "idéia porco" e a "idéia homem". (E por isso, a referida pastelaria pode ter, além de biscoitos em forma de homem, biscoitos em forma de porco e de cavalo, visto que uma pastelaria decente tem geralmente variadíssimas formas. Mas para cada tipo de biscoito é suficiente uma única forma). Conclusão: Platão defendia uma realidade própria por detrás do "mundo sensível".
A esta realidade chamava ele “o mundo das idéias”. Encontramos aqui os "modelos" eternos e imutáveis, os “arquétipos” por detrás dos diversos fenômenos que se nos deparam na natureza. Designamos esta importante concepção por “teoria das idéias” de Platão.
Platão achava que tudo o que vemos à nossa volta na natureza, sim, tudo o que podemos agarrar e tocar pode ser comparado com a bola de sabão. Porque nada do que existe no mundo dos sentidos dura. Tu sabes obviamente que todos os homens e animais mais tarde ou mais cedo morrem e entram em decomposição.
Mesmo um bloco de mármore se desagrega lentamente. Para Platão, nunca podemos ter um saber seguro acerca de algo que se transforma. Daquilo que pertence ao mundo sensível - e que nós podemos, portanto, agarrar e tocar -, temos apenas opiniões incertas ou suposições. Só podemos ter um saber verdadeiro
daquilo que conhecemos com a razão.  

Uma alma imortal
 
Vimos que, segundo Platão, a realidade está dividida em duas partes. Uma parte é “o mundo sensível” - de que só podemos atingir um conhecimento impreciso e imperfeito, e onde usamos os nossos cinco (imprecisos e imperfeitos) sentidos. A característica do mundo dos sentidos é que "tudo flui" e conseqüentemente nada possui estabilidade. Nada é no mundo dos sentidos, existe apenas um conjunto de coisas que nascem e perecem.
A outra parte é “o mundo das idéias” - de que podemos alcançar um saber certo usando a razão. Este mundo das idéias não pode ser conhecido através dos sentidos. Em compensação, as idéias (ou formas) são eternas e imutáveis.
Conseqüentemente, para Platão, o homem também é um ser dividido em duas partes. Temos um corpo que "flui". Ele está indissoluvelmente ligado ao mundo sensível e sofre o mesmo destino que o sensível (por exemplo, uma bola de sabão). Todos os nossos sentidos estão ligados ao corpo e são de pouca confiança. Mas nós possuímos também uma “alma imortal” - ela é a sede da razão. Uma vez que a alma não é material, pode observar o mundo das idéias.
Para Platão, a alma já existia antes de se ter estabelecido no nosso corpo: antigamente, a alma estava no mundo das idéias. (Estava junto às formas dos biscoitos em cima do armário). Mas logo que a alma acorda num corpo humano, esquece-se das idéias perfeitas. Inicia-se então um processo espantoso: quando o homem se apercebe das formas na natureza, emerge progressivamente na alma uma vaga recordação. O homem vê um cavalo - mas um cavalo imperfeito (sim, um cavalo em biscoito!), e isso é o suficiente para despertar na alma uma recordação vaga do cavalo perfeito que a alma viu outrora no mundo das idéias. Com isto, surge igualmente uma saudade, um desejo da verdadeira sede da alma. Platão chamava a este desejo Eros - ou seja- amor.

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Atividades para entregar na próxima aula!

1. Como vimos durante as aulas, a filosofia passou por uma mudança de seu objeto de estudo. Ou seja, seu interesse mudou. Explique que mudança foi essa.
2. Qual foi o gupo de filósofos que teve participação direta nessa mudança?
3. Por que podemos dizer que a cidade de Atenas teve grande importancia em tal mudança? Explique.
4. Se olharmos para o ser humano através da filosofia, podemos nos perguntar: O que é natural (inato) e o que é socialmente determinado em seu comportamento? Explique qual seria a resposta da filosofia para essa questão.
5. Sócrates foi um dos mais importantes personagens da história da filosofia. Por que?

Sócrates


“Quem era Sócrates?”

Sócrates (470-399 a.C.) é talvez a personagem mais enigmática de toda a história da filosofia. Não escreveu uma única linha. Apesar disso, pertence ao número dos que exerceram maior influência no
pensamento europeu. O fato de ser conhecido, mesmo por quem não possui muitos conhecimentos de filosofia, tem provavelmente a ver com a sua morte trágica.
Sabemos que nasceu em Atenas e que aí passou a sua vida, principalmente nas praças e nas ruas, onde conversava com todo o tipo de gente. Achava que os campos e as árvores não lhe podiam ensinar nada.
Por vezes, ficava longas horas absorto em reflexão profunda.
Ainda no seu tempo, era considerado uma pessoa enigmática e após a sua morte foi considerado o precursor das mais diversas orientações filosóficas. E precisamente por ser tão enigmático e ambíguo, variadíssimas orientações o podiam reivindicar.
Sabe-se que era muito feio. Era pequeno e gordo, e tinha olhos salientes e um nariz achatado. Mas interiormente, dizia-se, era um homem maravilhoso, nunca se poderia encontrar alguém igual a ele.
No entanto, foi condenado à morte devido à sua atividade filosófica.
Conhecemos a vida de Sócrates principalmente através de Platão, que era seu discípulo, também ele um dos maiores filósofos da história. Platão escreveu muitos diálogos - ou conversas filosóficas -nas quais faz participar Sócrates.
Quando Platão põe as palavras na boca de Sócrates, não podemos dizer com certeza que Sócrates as tivesse verdadeiramente pronunciado. Por isso, não é fácil distinguir a doutrina de Sócrates da de Platão. Este problema é válido, também, para muitas outras personalidades históricas que não deixaram fontes
escritas. O exemplo mais famoso é obviamente Jesus. Não podemos ter a certeza de que o "Jesus histórico" tenha dito, de fato, aquilo que Mateus ou Lucas puseram na sua boca.
Da mesma forma, permanecerá sempre um enigma aquilo que o "Sócrates histórico" disse realmente.
Quem era "realmente" Sócrates não é muito importante. É principalmente o seu retrato por Platão que inspira os pensadores ocidentais de há quase dois mil e quatrocentos anos.

“A arte do diálogo”

O que distinguia, na verdade, a atividade de Sócrates era o seu desejo de não ensinar os homens. Em vez disso, parecia querer ele mesmo aprender com o seu interlocutor. Assim, não ensinava como um vulgar professor de escola: dialogava.
Mas não se teria tornado um filósofo famoso se apenas tivesse escutado os seus interlocutores. Também não teria sido condenado à morte. E, principalmente no início, apenas punha questões. Alegava, humildemente, nada saber. No decurso do diálogo, levava freqüentemente os outros a reconhecerem os pontos fracos das suas reflexões. Podia suceder então que o interlocutor fosse encostado à parede e tivesse de reconhecer, por fim, o que era o justo e o injusto.
Diz-se que a mãe de Sócrates era parteira, e Sócrates comparava a sua atividade à arte da obstetrícia.
Não é a parteira que dá à luz a criança, ela apenas está presente e ajuda a mãe. Sócrates compreendeu também que a sua tarefa era ajudar os homens a "parir" o saber correto, porque o verdadeiro saber tem de vir de dentro e não pode ser enxertado. Só o conhecimento que vem do interior é a verdadeira "inteligência".
Vou precisar: a capacidade de dar à luz crianças é uma faculdade natural. Da mesma forma, todos os homens podem compreender as verdades filosóficas, usando simplesmente a razão. Quando alguém "recorre à razão", retira qualquer coisa de si mesmo. Precisamente por se fingir ignorante, Sócrates obrigava as pessoas a usarem a razão. Sócrates podia simular ignorância ou parecer mais estúpido do que na realidade era: a famosa “ironia socrática”.
Desta forma, ele conseguia sempre descobrir os pontos fracos na forma de pensar dos atenienses. Isto podia passar-se no centro de uma praça, ou seja, em público. Um encontro com Sócrates podia levar o interlocutor a fazer papel de estúpido, ou a ser ridicularizado perante uma grande assistência.
Por isso, não é de espantar que ele se tivesse tornado incômodo e muito irritante - principalmente para aqueles que detinham o poder. Sócrates dizia que Atenas era como um cavalo indolente, e ele era uma espécie de pernilongo que lhe picava o flanco para o manter desperto.

“Uma voz divina”

Sócrates picava os seus próximos no flanco, não tendo, porém, a intenção de os atormentar. Havia algo nele que não o deixava agir de outra forma. Repetia freqüentemente que ouvia interiormente uma voz divina. Sócrates insurgia-se, por exemplo, com a condenação de pessoas à morte. Além disso, recusava-se a denunciar inimigos políticos. Por fim, isso iria custar-lhe a vida.
No ano de 399 a.C. foi acusado de "corromper a juventude" e de "inventar novos deuses". Por uma maioria apertada, foi declarado culpado por um júri de 500 membros. Podia ter pedido clemência. Poderia, pelo menos, ter salvado a sua vida, se estivesse disposto a deixar Atenas. Mas se o tivesse feito, não teria sido Sócrates, porque a própria consciência - e a verdade - eram mais importantes do que a vida. Insistia que só agira para o bem do Estado, mas, mesmo assim, foi condenado à morte. Pouco tempo depois, e em presença dos seus amigos mais próximos, bebeu uma taça de cicuta.

“Um curinga em Atenas”

Sócrates era um contemporâneo dos sofistas. Como eles, preocupava-se com o homem e com a vida humana, não com os problemas dos filósofos da natureza. Um filósofo romano - Cícero – disse alguns séculos mais tarde que Sócrates trouxera a filosofia do céu para a terra, a introduzira nas cidades e nas casas e que tinha forçado os homens a refletirem sobre a vida e os costumes, o bem e o mal.
Mas Sócrates diferia dos sofistas num ponto importante. Não se considerava um sofista - uma pessoa instruída ou sábia. Ao contrário dos sofistas, não pedia remuneração pelo seu ensino.
Não, Sócrates denominava-se filósofo, no sentido mais genuíno do termo. Um "filósofo" é, na realidade, um "amante da sabedoria", alguém que aspira a adquirir a sabedoria.
 Os sofistas eram pagos pelas suas exposições mirabolantes e esses "sofistas" estiveram presentes durante toda a história. Refiro-me a todos os mestres-escola ou sabichões que estão satisfeitos com o seu
pouco saber ou que se gabam de saber muito acerca daquilo que, na realidade, não conhecem. Um filósofo apercebe-se bem que, no fundo, sabe muito pouco. Precisamente por isso ele procura sempre atingir o verdadeiro conhecimento. Por isso, Sócrates era um homem extraordinário. Sabia claramente que nada sabia acerca da vida e do mundo. E mais importante ainda: o fato de saber tão pouco atormentava-o.
Um filósofo é, portanto, alguém que reconhece que há muitas coisas que não entende. E isso aflige-o. Deste ponto de vista, é porém mais sábio que todos os que se gabam do seu pretenso saber.
"A pessoa mais sábia é aquela que sabe que não sabe", como eu disse. O próprio Sócrates dizia que sabia apenas uma coisa, isto é, que nada sabia. Presta atenção a isto, porque mesmo entre filósofos esta declaração é uma coisa rara. Além disso, pode ser perigoso declará-lo publicamente. Aqueles que perguntam são sempre os mais perigosos. Não é perigoso responder. Uma simples pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas.
Sócrates não tinha certezas absolutas, nem era indiferente. Sabia apenas que nada sabia - e isso preocupava-o, por isso se tornou filósofo - uma pessoa que não desiste e que procura incansavelmente o saber.
Conta-se que uma vez um ateniense perguntou ao oráculo de Delfos quem era o homem mais sábio de Atenas. O oráculo respondeu: Sócrates. Quando Sócrates soube disso ficou verdadeiramente admirado.  Foi imediatamente para a cidade e procurou alguém que fosse tido por ele e por outros como sábio. Mas quando se provou que esse homem não conseguia responder com clareza às suas perguntas, Sócrates reconheceu por fim que o oráculo tinha razão.
Para Sócrates, era importante encontrar um fundamento seguro para o nosso conhecimento. Acreditava que esse fundamento residia na razão humana. Devido à sua forte convicção na razão humana, ele era um racionalista.

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo

Atenas e os Sofistas

Por volta de 450 a.C., Atenas tornou-se o centro cultural do mundo grego. A filosofia também tomou então uma orientação nova. Os filósofos da natureza eram, principalmente, investigadores do mundo físico.
Ocupam conseqüentemente um lugar importante na história das ciências. Em Atenas, o interesse concentrou-se então mais no homem e no seu lugar na sociedade.
Em Atenas desenvolvia-se progressivamente uma democracia com assembléias populares e tribunais. Uma das condições para a instauração da democracia exigia que os homens recebessem instrução suficiente para poderem participar na vida política. Também nos dias de hoje vemos que uma jovem democracia precisa do esclarecimento popular. Entre os atenienses isso significava, principalmente, dominar a retórica.
Vindo das colônias gregas, um grupo de professores itinerantes e de filósofos afluiu então a Atenas. Chamavam-se sofistas. A palavra "sofista" designa uma pessoa sábia ou erudita. Em Atenas, os sofistas ganhavam o seu sustento ensinando os cidadãos.
Os sofistas tinham uma notável semelhança com os filósofos da natureza, pois também eles eram críticos relativamente aos mitos tradicionais. Mas, simultaneamente, os sofistas recusavam tudo o que lhes parecia ser especulação filosófica desnecessária.
Achavam que mesmo que houvesse resposta para muitas questões filosóficas, os homens nunca poderiam encontrar explicações verdadeiramente seguras para os enigmas da natureza e do universo. Em filosofia, este ponto de vista é designado por “ceticismo”.
Mas apesar de não podermos encontrar resposta para todos os enigmas da natureza, sabemos que somos homens e que devemos aprender como viver em comunidade. Os sofistas interessavam-se pelo homem e pelo seu lugar na sociedade.
"O homem é a medida de todas as coisas", dizia o sofista Protágoras (cerca de 487- 420 a.C.). Queria dizer que a justiça e a injustiça, o bem e o mal devem ser sempre avaliados em função das necessidades dos homens. À pergunta se acreditava nas divindades gregas, respondeu: "sobre os deuses nada posso dizer! Porque muitas coisas nos impedem que o saibamos: a dificuldade do problema e a brevidade da vida humana". Chamamos “agnóstico” àquele que diz não poder afirmar com segurança se Deus existe ou não.
Os sofistas faziam com freqüência longas viagens, tomando assim conhecimento de vários sistemas de governo.
Os usos e os costumes, e as leis das cidades-estado variavam muito. Partindo dessas experiências, os sofistas iniciaram em Atenas uma discussão sobre o que era estabelecido pela natureza e o que era imposto pela sociedade. Desta forma, criaram na cidade-estado de Atenas as bases para uma crítica social. Podiam, por exemplo, mostrar que uma expressão como "pudor natural" não era admissível, porque se o pudor fosse natural, teria de ser inato.Mas é inato - ou foi a sociedade que o criou? Para pessoas que viajaram muito, a resposta tinha de ser simplesmente: não é natural - ou inata -a vergonha de se mostrar nu. Pudor - ou a ausência de pudor - tem a ver, principalmente, com os usos e os costumes numa sociedade.

 O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo

quinta-feira, 8 de março de 2012

Demócrito: "O mundo é composto por átomos"

"O último grande filósofo da natureza chamava-se Demócrito (aproximadamente 460-370 a.C.) e vinha da cidade portuária de Abdera, a norte do Mar Egeu. Se conseguiste responder à pergunta acerca das peças do Lego, não te será difícil compreender o projeto deste filósofo.
Demócrito concordava com os seus predecessores ao afirmar que as transformações observáveis na natureza não significavam que algo se alterasse realmente. Admitiu, portanto, que tudo tinha de ser composto de elementos pequenos e invisíveis, eternos e imutáveis. Demócrito designava estas pequenas partículas por átomos.
O termo "átomo" significa "indivisível". Para Demócrito, era fundamental afirmar que aquilo a partir do qual tudo é formado não pode ser dividido em partes cada vez menores. Se os átomos pudessem ser constantemente divididos em partes cada vez menores, a natureza teria começado a fluir como uma sopa cada vez mais líquida.
Os elementos constitutivos da natureza tinham ainda de se conservar eternamente - porque nada pode nascer do nada. Nisto, Demócrito estava de acordo com Parmênides e os eleatas. Além disso, os átomos eram sólidos e compactos. Mas não podiam ser iguais. Porque se os átomos fossem iguais, não teríamos uma explicação válida para o fato de poderem ser combinados de modo a formarem tudo, desde papoulas e oliveiras à pele de cabra e cabelo humano.
Existe uma quantidade infinita de átomos diferentes na natureza segundo Demócrito. Alguns são redondos e lisos, outros são irregulares e curvos. E precisamente porque têm formas tão diversas, podem ser combinados para formarem corpos completamente diversos. Mesmo sendo numerosos e diferentes, todos são eternos, imutáveis e indivisíveis.
Quando um corpo – por exemplo, uma árvore ou um animal - morre e entra em decomposição, os seus átomos dispersam-se e podem ser utilizados de novo em novos corpos. Os átomos movem-se no espaço vazio e agregam-se para formar as coisas que vemos à nossa volta.
E agora já percebes o que eu queria dizer com as peças do Lego? Elas possuem mais ou menos as propriedades que Demócrito atribuiu aos átomos, e precisamente por isso se pode construir tão bem com elas. Em primeiro lugar, são indivisíveis. São diferentes em forma e em tamanho, são sólidas e impenetráveis.
Além disso, as peças do Lego têm "ganchos", com os quais podem ser encaixadas umas nas outras; por isso podem ser transformadas em todas as figuras possíveis. Esta combinação pode ser mais tarde desfeita e depois construírem-se novos objetos a partir das mesmas peças.
E foi justamente o fato de poderem ser sempre usadas de novo que tornou o Lego tão popular. Uma e a mesma peça de Lego pode fazer hoje parte de um carro, e amanhã de um palácio. Além disso, é possível dizer que as peças do Lego são "imortais". As crianças de hoje podem brincar com as mesmas peças com que os seus pais brincaram quando ainda eram pequenos.
É claro que também podemos construir objetos de barro. Mas o barro nem sempre pode ser reaproveitado, pois se desfaz em partes cada vez menores, até se reduzir a pó. E estas minúsculas partículas de argila não podem ser reunidas para formar novos objetos. Hoje, podemos quase afirmar que a teoria de Demócrito estava certa. A natureza é de fato formada por diversos átomos, que se combinam uns com os outros e se separam de ovo. Um átomo de hidrogênio que está numa célula na extremidade do meu nariz pertenceu, outrora, à tromba de um elefante. Um átomo de carbono do meu miocárdio esteve já na cauda de um dinossauro.
Hoje em dia, a ciência descobriu que os átomos se dividiam em "partículas elementares" ainda menores. A essas partículas elementares chamamos prótons, nêutrons e elétrons. E talvez estas se deixem dividir em partículas ainda menores. Mas os físicos concordam em afirmar que tem de haver um limite. Têm de existir as partículas menores a partir das quais a natureza é formada.
Demócrito não tinha acesso aos aparelhos eletrônicos do nosso tempo. O seu único instrumento era a razão. Mas a razão não lhe deixava nenhuma alternativa. Se aceitarmos que nada se pode alterar, que nada surge do nada e que nada desaparece, nesse caso a natureza tem de ser formada por elementos constitutivos minúsculos que se combinam e se separam uns dos outros.
Demócrito não tinha em conta uma "força" ou um "espírito" que interviesse nos processos naturais. As únicas coisas que existem, segundo ele, são os átomos e o espaço vazio. Dado que ele só acreditava no que é "material", denominamo-lo materialista.
Nos movimentos dos átomos não há uma finalidade consciente. Isso não significa que tudo o que acontece seja ao "acaso", porque tudo segue as leis constantes da natureza. Demócrito achava que tudo o que acontece tem uma causa natural, uma causa que reside nas próprias coisas. Teria dito um dia que preferia descobrir uma lei da natureza a tornar-se rei da Pérsia.
Segundo Demócrito, a teoria atomista esclarecia também as nossas “sensações”. A percepção que temos de alguma coisa deve-se ao movimento dos átomos no vazio. Quando vejo a lua, o que acontece é que os "átomos lunares" atingem o meu olho.
E a “alma”? Não pode ser constituída por átomos, por "coisas" materiais? Para Demócrito a alma era constituída por "átomos de alma" redondos e lisos. Quando um homem morre, os átomos da alma dispersam-se em todas as direções e podem dar vida a outra alma.
Isto significa que o homem não possui uma alma imortal.
Este é um pensamento partilhado hoje por muitas pessoas. Acreditam, como Demócrito, que a alma está ligada ao cérebro, e que não podemos ter nenhuma forma de consciência quando o cérebro se decompõe.
Com a sua teoria atomista, Demócrito pôs um ponto final provisório na filosofia da natureza grega. Estava de acordo com Heráclito quando pensava que, na natureza, tudo flui; porque as formas vêm e vão. Mas por detrás de tudo o que flui, há algo eterno e imutável que não flui: os átomos, segundo Demócrito."

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA

Empédocles: "As quatro raízes da natureza"

"Empédocles (aproximadamente 494-434 a.C.), de Agrigento, haveria de encontrar o caminho para sair do novelo no qual a filosofia se tinha emaranhado. Pensava que tanto Parmênides como Heráclito tinham razão numa das suas afirmações, mas que ambos se enganavam num ponto.
Segundo Empédocles, a grande discórdia baseava-se no fato de os filósofos terem pressuposto que apenas havia um elemento. Se isso fosse verdade, então o abismo entre o que a razão diz e o que recebemos dos sentidos seria intransponível.
A água não se pode transformar em peixe ou em borboleta. A água não se pode transformar de todo. A água pura permanece água pura para toda a eternidade. Parmênides tinha razão em afirmar que nada se transforma. Simultaneamente, Empédocles estava de acordo com Heráclito, dizendo que devemos confiar nas impressões dos sentidos. Temos que acreditar no que vemos, e vemos transformações permanentes na natureza.
Empédocles reconheceu que a idéia de um único elemento primordial tinha de ser rejeitada. Nem a água, nem o ar se podiam transformar numa roseira ou numa borboleta. A natureza não podia ter apenas um elemento constituinte.
Segundo Empédocles a natureza é constituída por quatro elementos primordiais ou "raízes", que identifica com a terra, o ar, o fogo e a água. Todas as transformações da natureza resultam do fato de os quatro elementos se misturarem e se separarem. Tudo é constituído por terra, ar, fogo e água, misturados em proporções variáveis. Quando uma flor ou um animal morrem, os quatro elementos separam-se novamente uns dos outros.
Podemos apercebermo-nos destas transformações a olho nu. Mas a terra, o ar, o fogo e a água permanecem totalmente inalterados ou intactos, apesar de todas as misturas em que estão presentes. Também não é verdade que "tudo" se altera. Basicamente, nada se altera. O que sucede é que quatro elementos diferentes se
misturam e se voltam a separar - para se misturarem novamente no futuro.
Podemos fazer uma comparação com um pintor. Se ele tem apenas uma cor – por exemplo, o vermelho – não pode pintar árvores verdes. Mas se tem amarelo, vermelho, azul e preto, pode pintar centenas de cores
diferentes, porque mistura as cores em proporções diferentes.
Um exemplo da cozinha mostra-nos o mesmo. Se eu tivesse apenas farinha, tinha de ser um ilusionista para fazer um bolo com ela. Mas se tenho ovos e farinha, leite e açúcar, posso criar variados bolos com os quatro elementos de base.
Não foi por acaso que para Empédocles as raízes da natureza eram precisamente a terra, o ar, o fogo e a água. Antes dele, outros filósofos tinham procurado mostrar que o elemento primordial era a terra ou a água ou o ar ou o fogo. Tales e Anaxímenes tinham insistido em que a água e o ar eram elementos importantes na natureza.
Para os Gregos, o fogo também era importante. Por exemplo, viam a importância do Sol em toda a vida da natureza e, obviamente, tinham conhecimento do calor do corpo nos homens e nos animais.
Talvez Empédocles tenha visto arder um pedaço de madeira. Neste caso, há algo que se desagrega. Ouvimo-lo no crepitar da madeira. É a água. Algo se torna fumaça. É o fogo. E vemos claramente o fogo. Quando as chamas se apagam, algo permanece. É a cinza, ou a terra.
Depois de Empédocles ter indicado que as transformações da natureza são produzidas através da mistura e separação das quatro raízes, há ainda uma questão em aberto: qual é a causa pela qual os elementos se unem para que nasça uma nova vida? E o que é que contribui para que a "mistura", uma flor, por exemplo, se desagregue de novo?
Segundo Empédocles, há na natureza duas forças diferentes que nela agem. Designava estas forças por “amor” e “discórdia”. Aquilo que une as coisas é o amor, o que as desagrega é a discórdia.
Empédocles faz uma distinção importante entre elemento e força. É importante notar isto. Ainda hoje, a ciência distingue elementos e forças da natureza. A ciência moderna acredita que todos os processos da natureza se podem explicar como resultado dos vários elementos e algumas forças da natureza.
Empédocles também se dedicou à questão do que acontece quando sentimos algo. Como é que eu posso, por exemplo, "ver" uma flor? Empédocles pensava que os nossos olhos, tal como todas as outras coisas na natureza, são constituídos por terra, ar, fogo e água. Por isso, a terra do meu olho apreende o que é feito de terra no que é visto, o ar apreende o que é feito de ar, o fogo dos olhos apreende o que é feito de fogo, e a água o que é feito de água. Se faltasse no olho um destes elementos, eu não poderia ver toda a natureza."

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

2º e 3º ano (13 a 17/02) Heráclito: “Tudo flui”

“Heráclito”, contemporâneo de Parmênides, era originário de Éfeso na Ásia Menor (aproximadamente 540-480 a.C.). Segundo ele, as transformações constantes eram a verdadeira característica da natureza. Podemos dizer que Heráclito confiava mais nas impressões dos sentidos do que Parmênides.
"Tudo flui", segundo Heráclito. Tudo está em movimento, e nada dura eternamente. Por isso, não podemos "entrar duas vezes no mesmo rio". Porque quando entro no rio pela segunda vez, tanto eu como o rio estamos mudados.
Heráclito explicou, também, que o mundo é caracterizado por contrários constantes. Se nunca estivéssemos doentes, não compreenderíamos o que é a saúde. Se nunca tivéssemos fome, não gostaríamos de comer. Se nunca houvesse guerra, não saberíamos apreciar a paz, e se nunca fosse Inverno, não saberíamos quando chega a Primavera.
Tanto o bem como o mal ocupam um lugar necessário no todo, dizia Heráclito. Sem o jogo permanente entre contrários, o mundo terminaria. "Deus é o dia e a noite, o Inverno e o Verão, a guerra e a paz, a saciedade e a fome", dizia. Ele utiliza aqui a palavra "Deus", mas não se refere aos deuses de que falam os mitos. Segundo Heráclito, Deus - ou o divino - é algo que abrange tudo. Sim, Deus está patente justamente na natureza, que é contraditória e está em transformação constante.
Em vez do termo "Deus", Heráclito usa freqüentemente a palavra grega “logos”, que significa razão. Mesmo que nós, homens, não pensemos sempre de modo igual ou não tenhamos o mesmo bom-senso, tem de haver uma espécie de "razão universal", que governe tudo o que acontece na natureza. Esta razão universal - ou "lei universal" – é comum a todos, e todos os homens se devem orientar por ela. No entanto, a maior parte deles vive segundo a sua própria razão particular, segundo Heráclito. Com efeito, ele não tinha uma idéia muito positiva do seu próximo. As opiniões da maior parte dos homens eram, para ele, "brinquedos de crianças".
Em todas as transformações e contradições da natureza, Heráclito via uma unidade ou totalidade. Aquilo que está na origem de tudo era designado por ele "Deus", ou “logos”.

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA

2º e 3º ano (13 a 17/02) Parmênides: “Do nada, nada pode nascer”.

A partir de aproximadamente 500 a.C. viveram na colônia grega de Eléia, na Itália meridional, alguns filósofos, e estes "eleatas" tratavam destes problemas. O mais conhecido de entre eles era Parmênides (aproximadamente 540-480 a.C.). Parmênides acreditava que tudo o que existe, existiu sempre. Esta idéia estava bastante difundida entre os Gregos. Tinham como evidente que tudo o que há no mundo existiu desde sempre. Do nada, nada pode nascer, pensava Parmênides. E nada do que existe pode tornar-se nada.
Mas Parmênides foi mais longe que a maior parte dos outros. Para ele, não era possível nenhuma verdadeira transformação. Uma coisa só se pode transformar naquilo que já é.
Parmênides não tinha dúvidas de que na natureza se dão constantemente transformações. Os seus sentidos apercebiam-se do devir das coisas. Mas não conseguia fazer coincidir o que os seus sentidos registravam com o que a razão lhe dizia. Quando foi obrigado a decidir se devia confiar nos sentidos ou na razão, decidiu-se pela razão. Conhecemos a frase: "Só acredito naquilo que vejo." Mas Parmênides nem sequer acreditava no que via. Pensava que os sentidos nos forneciam uma imagem falsa do mundo, uma imagem que não coincidia com o que a razão diz aos homens. Enquanto filósofo, encarava a sua tarefa como o desmascarar de todas as formas de "ilusões sensoriais".
Esta forte confiança na razão humana é designada “racionalismo”. Um racionalista é uma pessoa que tem uma grande confiança na razão humana, como fonte do nosso conhecimento sobre o mundo.

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
EDITORIAL PRESENÇA