domingo, 27 de maio de 2012
“Aristóteles” (384-322 a.C.).
Ele foi durante vinte anos aluno na Academia de Platão.
Aristóteles não era um ateniense. Era natural da Macedônia,
mas foi para a Academia quando Platão tinha 61 anos. O pai era um médico
reconhecido - ou seja, um cientista. Este pano de fundo já nos diz algo sobre o
projeto filosófico de Aristóteles.
Aquilo que o interessava acima de tudo era a natureza viva.
Não foi apenas o último grande filósofo grego, foi também o primeiro grande
biólogo da Europa. Se quisermos formular tudo de um modo um tanto exagerado,
podemos dizer que Platão estava tão concentrado nas formas ou "ideias"
eternas que mal reparava nas transformações da natureza.
Aristóteles, pelo contrário, interessava-se precisamente
pelas transformações – ou aquilo que nós hoje designamos por processos físicos.
Se quisermos exagerar ainda mais, podemos dizer que Platão
se afastava do mundo sensível e só distinguia passageiramente aquilo que vemos
à nossa volta. (Ele queria sair da caverna! Queria olhar para o eterno mundo
das ideias!). Aristóteles fazia exatamente o inverso: dirigia-se à natureza e
estudava peixes e rãs, anêmonas e papoulas.
Podes dizer que Platão usou apenas o seu entendimento;
Aristóteles, por seu lado, usou também os sentidos.
Até na sua maneira de escrever encontramos claras
diferenças. Enquanto Platão era poeta e criador de mitos, os textos de
Aristóteles são secos e pormenorizados como uma enciclopédia. Em compensação,
na origem de muitas coisas acerca das quais ele escreve, há estudos naturalistas intensivos.
Na Antiguidade são referidos mais de 170 títulos que
Aristóteles terá escrito. Hoje, conservam-se 47 textos. Não se trata de livros
acabados. A maior parte dos textos de Aristóteles são constituídos por
apontamentos para as lições. Mesmo no tempo de Aristóteles, a filosofia era
principalmente uma atividade oral. A importância de Aristóteles para a cultura europeia não reside apenas no fato de ele ter
criado a linguagem técnica que ainda hoje as diversas ciências utilizam. Ele foi o grande
sistemático que fundou e ordenou as diversas ciências.
Como Aristóteles escreveu sobre todas as ciências, vou
tratar apenas de algumas das áreas mais importantes.
Dado que falei tanto de Platão, deves saber primeiro como é
que Aristóteles argumenta contra a teoria das ideias de Platão. Depois, vamos
ver como é que ele concebe a sua própria filosofia da natureza. Aristóteles
recapitulou aquilo que os filósofos da natureza antes dele disseram. Vamos ver
como é que ele ordena os nossos conceitos e funda a lógica como ciência. Por fim, vou falar ainda um pouco da visão de
Aristóteles acerca do homem e da sociedade. Se aceitares estas condições, só precisamos
arregaçar as mangas e começar.
“Não há ideias inatas”
Tal como os filósofos anteriores, também Platão queria
encontrar algo eterno e imutável no meio de todas as transformações. Deste
modo, encontrou as ideias perfeitas, que são superiores ao mundo sensível. Além
disso, para Platão, estas ideias eram mais reais do que todos os fenômenos na
natureza.
Primeiro, vinha a ideia "cavalo" - em seguida,
todos os cavalos do mundo sensível, que galopavam como cópias na parede de uma
caverna. Logo, a ideia "galinha" veio antes da galinha e do ovo.
Aristóteles achava que Platão tinha posto tudo às avessas.
Estava de acordo com o seu professor em que o cavalo particular
"flui", e que nenhum cavalo vive eternamente.
Também estava de acordo em que a forma do cavalo é em si
eterna e imutável. Mas a "ideia" cavalo é, para ele, apenas um
conceito que nós homens formamos, depois de termos visto um determinado número de cavalos.
Para Aristóteles, a "forma" cavalo consiste nas
características do cavalo – diríamos hoje na “espécie” cavalo.
Vou precisar: pela "forma" cavalo, Aristóteles
designa aquilo que é comum a todos os cavalos. E neste caso, a imagem da forma
do biscoito já não é válida, porque as formas existem independentemente do
biscoito particular.
Aristóteles não acreditava que essas formas, por assim
dizer, existissem na sua própria prateleira na natureza.
Para Aristóteles, as "formas" residem nas próprias
coisas como qualidades específicas das coisas.
Aristóteles também não concorda com Platão em que a ideia
"galinha" precede a galinha. Aquilo a que Aristóteles chama a
"forma" galinha, reside na forma das qualidades específicas de cada
galinha - por exemplo, pôr ovos. Assim, a galinha em si e a "forma" galinha
são tão inseparáveis como a alma e o corpo.
Com isto, dissemos basicamente quase tudo acerca da crítica
de Aristóteles à teoria das ideias de Platão.
Mas deves notar que estamos a falar de uma mudança drástica
no pensamento.
Para Platão, o grau máximo de realidade é o que pensamos com
a razão. Para Aristóteles, é igualmente evidente que o grau máximo de realidade
é o que percebemos ou sentimos com os sentidos. Segundo Platão, aquilo que vemos à nossa volta
na natureza é apenas reflexo de algo que existe no mundo das ideias - e consequentemente
na alma do homem.
Aristóteles dizia exatamente o contrário: aquilo que está na
alma do homem é apenas reflexo dos objetos da natureza. O mundo real é a
natureza, segundo Aristóteles, enquanto
Platão fica preso a uma concepção mítica do mundo que
confunde as representações do homem com o mundo real.
Aristóteles aponta para o fato de que nada existe na
consciência que não tenha existido primeiro nos sentidos. Platão poderia ter
dito que não há nada na natureza que não tenha existido primeiro no mundo das ideias.
Desta forma, Platão duplicou o número de coisas, segundo
Aristóteles. Ele explicara o cavalo particular recorrendo à ideia
"cavalo".
Que tipo de explicação é esta, Sofia? Isto é, de onde vem a ideia
"cavalo"?
Existirá ainda um terceiro cavalo - do qual a ideia
"cavalo" é por sua vez apenas uma cópia?
Aristóteles defendia que tudo o que temos em pensamentos e
em ideias chegou à nossa consciência através daquilo que vimos e ouvimos. Mas
também temos uma razão inata.
Temos uma faculdade inata de ordenar todas as impressões
sensíveis em diferentes grupos e classes. Assim nascem conceitos como
"pedra", "planta", "animal" e "homem".
Assim surgem os conceitos "cavalo",
"lagosta" e "canário".
Aristóteles não negava que o homem tivesse uma razão inata.
Muito pelo contrário: para Aristóteles, a razão é precisamente a característica
mais importante do homem.
Mas a nossa razão está completamente "vazia"
enquanto não sentirmos nada.
Logo, um homem não possui "ideias" inatas.
Platão - "O Estado dos filósofos"
No diálogo “A República”, Platão descreve o Estado ideal,
isto é, ele imagina um Estado-modelo – ou aquilo que designamos por
"Estado utópico". Resumidamente, podemos dizer que, para Platão, o
Estado deve ser governado por filósofos. Toma como ponto de partida o homem individual.
Segundo Platão, o corpo humano é constituído por três
partes, a saber: a cabeça, o peito e o abdômen. A cada uma destas partes
corresponde uma faculdade. À cabeça corresponde a razão, ao peito a vontade, ao
abdômen o prazer ou a concupiscência. A cada uma destas faculdades pertence
ainda um ideal ou uma virtude. A razão deve procurar a sabedoria, a vontade
deve mostrar coragem, e a concupiscência deve ser refreada, para que o homem
possua temperança. Só quando as três partes atuam em consonância temos um homem
harmonioso ou íntegro. Na escola, as crianças têm de aprender primeiro a
refrear a sua concupiscência, depois é desenvolvida a coragem, e por fim devem
desenvolver a razão e adquirir a sabedoria.
Platão imagina um Estado que é organizado exatamente como um
homem. Assim como o corpo possui "cabeça", "peito" e
"abdômen", o Estado possui soberanos, guardiões (ou soldados) e os
comerciantes (grupo ao qual pertencem, além dos comerciantes, os artesãos e os
camponeses). Torna-se claro que Platão toma como modelo a ciência médica grega.
Assim como um homem são e harmonioso apresenta equilíbrio e temperança, aquilo que
caracteriza um Estado justo é o fato de cada um conhecer o seu lugar no todo.
Tal como a filosofia de Platão em geral, também a sua filosofia política está
impregnada de racionalismo. Decisivo para a criação de um bom Estado é ele ser
dirigido com razão.
Tal como a cabeça dirige o corpo, são os filósofos que têm
de governar a sociedade. Faço agora uma apresentação resumida da relação entre
os três componentes do homem e do Estado:
Homem Estado
Corpo
Cabeça
peito
abdômen
Virtude
Sabedoria
Coragem
temperança
Alma
razão
vontade
concupiscência
Estado
soberano
guardiões
artesãos
O Estado ideal de Platão pode fazer lembrar o antigo sistema
indiano de castas, onde cada um tinha a sua função específica para o bem do
todo. Desde o tempo de Platão e ainda antes – o sistema indiano de castas
conhece exatamente esta tripartição entre a casta governante (ou a casta dos
sacerdotes), a casta guerreira e a casta dos artesãos.
Hoje diríamos talvez que o Estado de Platão é um Estado
totalitário. Devemos reparar que ele era da opinião de que as mulheres poderiam
governar o Estado tal como os homens, precisamente porque os soberanos devem
governar a cidade-estado em função da sua razão. Segundo Platão, as mulheres
tinham tanta racionalidade como os homens, se recebessem a mesma formação, e se
fossem ainda libertadas do cuidado das crianças e das tarefas domésticas.
Platão queria abolir nos soberanos e nos seus guardiões a família e a propriedade
privada. A formação das crianças era demasiado importante para ser deixada aos
indivíduos. A educação das crianças tinha de estar a cargo do Estado. (Platão
foi o primeiro filósofo que se pronunciou a favor de jardins infantis e escolas
públicas).
Depois de ter tido algumas desilusões políticas, Platão
escreveu o diálogo “As Leis”. Descreve nele o "Estado de lei" como o
segundo melhor Estado e introduz de novo a propriedade privada e os laços
familiares. Desta forma, a liberdade das mulheres é restringida. Mas ele diz
também que um Estado que não educa e forma mulheres é como um homem que apenas
exercita o seu braço direito.
Podemos basicamente dizer que Platão tinha uma opinião
positiva das mulheres – pelo menos para o seu tempo. No diálogo “O Banquete” é
uma mulher, Diotima, que revela a Sócrates o seu saber filosófico.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Platão - “O mundo das idéias”
Empédocles e Demócrito já tinham mostrado que todos os fenômenos na natureza "fluem", mas que apesar disso há "algo" que nunca se transforma (as "quatro raízes" ou os "átomos"). Platão confronta-se igualmente com esta problemática - mas de uma forma completamente diferente.
Platão achava que tudo o que podemos tocar e sentir na natureza "flui". Não há, portanto, nenhum elemento eterno. Tudo o que pertence ao "mundo sensível" é composto por uma matéria que o tempo consome. Mas ao mesmo tempo, tudo é constituído por uma forma intemporal que é eterna e imutável.
Porque é que os cavalos são iguais? Talvez penses que eles não o são de todo. Mas há algo que é comum a todos os cavalos, algo que permite que nunca tenhamos problemas em reconhecer um cavalo.
Um cavalo particular "flui", obviamente. Pode ser velho e coxo, com o tempo ficará também doente, e morre. Mas a verdadeira "forma de cavalo" é eterna e imutável. Assim, o eterno e imutável não é nenhum "elemento primordial". O eterno e o imutável são modelos espirituais ou abstratos, a partir dos quais se formam todos os fenômenos.
Vou ser mais preciso: os pré-socráticos tinham dado uma explicação verdadeiramente útil para as transformações na natureza, sem ter que pressupor que algo se "transforma" efetivamente. Na natureza há partículas minúsculas, eternas e constantes que não entram em desagregação, segundo eles. Pois bem! Mas não tinham nenhuma explicação aceitável para o modo como estas partículas minúsculas que eram elementos constituintes de um cavalo podiam produzir quatro ou cinco séculos mais tarde um cavalo totalmente novo! Ou talvez um elefante, ou um crocodilo. Platão quer dizer que os átomos de Demócrito nunca se podem tornar um "crocofonte" ou um "eledilo". E foi precisamente este o ponto de partida das suas reflexões filosóficas.
Imaginemos agora que cais do espaço sideral para a terra e que nunca tinhas visto uma padaria. Deparas com uma padaria atraente - e vês, num tabuleiro, cinqüenta biscoitos em forma de homem, exatamente iguais. Calculo que coçarias a cabeça e te questionarias como é que podiam ser todos exatamente iguais. É fácil de imaginar que a um falta um braço, um outro perdeu talvez um bocado da cabeça, e o terceiro tem uma barriga demasiado gorda. Mas depois de uma reflexão fundada chegas à conclusão de que todos os biscoitos possuem um denominador comum. Apesar de nenhum deles ser totalmente perfeito, tens a idéia de que têm que ter uma origem comum. Compreendes que todos os biscoitos foram feitos a partir de uma mesma forma.
Se resolveste este problema sozinho, resolveste um problema filosófico exatamente da mesma forma que Platão. Como a maior parte dos filósofos, ele "caiu do espaço sideral", por assim dizer. (Ele instalou-se na parte mais alta de um dos pêlos finos da pelagem do coelho). Ele admirou-se como todos os fenômenos na natureza podem ser tão semelhantes entre si, e chegou então à conclusão de que "acima" ou "por detrás" de tudo o que vemos à nossa volta há um número limitado de formas. A estas formas chamou Platão idéias. Por detrás de todos os cavalos, porcos e homens há a "idéia cavalo", a "idéia porco" e a "idéia homem". (E por isso, a referida pastelaria pode ter, além de biscoitos em forma de homem, biscoitos em forma de porco e de cavalo, visto que uma pastelaria decente tem geralmente variadíssimas formas. Mas para cada tipo de biscoito é suficiente uma única forma). Conclusão: Platão defendia uma realidade própria por detrás do "mundo sensível".
A esta realidade chamava ele “o mundo das idéias”. Encontramos aqui os "modelos" eternos e imutáveis, os “arquétipos” por detrás dos diversos fenômenos que se nos deparam na natureza. Designamos esta importante concepção por “teoria das idéias” de Platão.
A esta realidade chamava ele “o mundo das idéias”. Encontramos aqui os "modelos" eternos e imutáveis, os “arquétipos” por detrás dos diversos fenômenos que se nos deparam na natureza. Designamos esta importante concepção por “teoria das idéias” de Platão.
Platão achava que tudo o que vemos à nossa volta na natureza, sim, tudo o que podemos agarrar e tocar pode ser comparado com a bola de sabão. Porque nada do que existe no mundo dos sentidos dura. Tu sabes obviamente que todos os homens e animais mais tarde ou mais cedo morrem e entram em decomposição.
Mesmo um bloco de mármore se desagrega lentamente. Para Platão, nunca podemos ter um saber seguro acerca de algo que se transforma. Daquilo que pertence ao mundo sensível - e que nós podemos, portanto, agarrar e tocar -, temos apenas opiniões incertas ou suposições. Só podemos ter um saber verdadeiro
daquilo que conhecemos com a razão.
Mesmo um bloco de mármore se desagrega lentamente. Para Platão, nunca podemos ter um saber seguro acerca de algo que se transforma. Daquilo que pertence ao mundo sensível - e que nós podemos, portanto, agarrar e tocar -, temos apenas opiniões incertas ou suposições. Só podemos ter um saber verdadeiro
daquilo que conhecemos com a razão.
Uma alma imortal
Vimos que, segundo Platão, a realidade está dividida em duas partes. Uma parte é “o mundo sensível” - de que só podemos atingir um conhecimento impreciso e imperfeito, e onde usamos os nossos cinco (imprecisos e imperfeitos) sentidos. A característica do mundo dos sentidos é que "tudo flui" e conseqüentemente nada possui estabilidade. Nada é no mundo dos sentidos, existe apenas um conjunto de coisas que nascem e perecem.
A outra parte é “o mundo das idéias” - de que podemos alcançar um saber certo usando a razão. Este mundo das idéias não pode ser conhecido através dos sentidos. Em compensação, as idéias (ou formas) são eternas e imutáveis.
A outra parte é “o mundo das idéias” - de que podemos alcançar um saber certo usando a razão. Este mundo das idéias não pode ser conhecido através dos sentidos. Em compensação, as idéias (ou formas) são eternas e imutáveis.
Conseqüentemente, para Platão, o homem também é um ser dividido em duas partes. Temos um corpo que "flui". Ele está indissoluvelmente ligado ao mundo sensível e sofre o mesmo destino que o sensível (por exemplo, uma bola de sabão). Todos os nossos sentidos estão ligados ao corpo e são de pouca confiança. Mas nós possuímos também uma “alma imortal” - ela é a sede da razão. Uma vez que a alma não é material, pode observar o mundo das idéias.
Para Platão, a alma já existia antes de se ter estabelecido no nosso corpo: antigamente, a alma estava no mundo das idéias. (Estava junto às formas dos biscoitos em cima do armário). Mas logo que a alma acorda num corpo humano, esquece-se das idéias perfeitas. Inicia-se então um processo espantoso: quando o homem se apercebe das formas na natureza, emerge progressivamente na alma uma vaga recordação. O homem vê um cavalo - mas um cavalo imperfeito (sim, um cavalo em biscoito!), e isso é o suficiente para despertar na alma uma recordação vaga do cavalo perfeito que a alma viu outrora no mundo das idéias. Com isto, surge igualmente uma saudade, um desejo da verdadeira sede da alma. Platão chamava a este desejo Eros - ou seja- amor.
Para Platão, a alma já existia antes de se ter estabelecido no nosso corpo: antigamente, a alma estava no mundo das idéias. (Estava junto às formas dos biscoitos em cima do armário). Mas logo que a alma acorda num corpo humano, esquece-se das idéias perfeitas. Inicia-se então um processo espantoso: quando o homem se apercebe das formas na natureza, emerge progressivamente na alma uma vaga recordação. O homem vê um cavalo - mas um cavalo imperfeito (sim, um cavalo em biscoito!), e isso é o suficiente para despertar na alma uma recordação vaga do cavalo perfeito que a alma viu outrora no mundo das idéias. Com isto, surge igualmente uma saudade, um desejo da verdadeira sede da alma. Platão chamava a este desejo Eros - ou seja- amor.
O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Atividades para entregar na próxima aula!
1. Como vimos durante as aulas, a filosofia passou por uma mudança de seu objeto de estudo. Ou seja, seu interesse mudou. Explique que mudança foi essa.
2. Qual foi o gupo de filósofos que teve participação direta nessa mudança?
3. Por que podemos dizer que a cidade de Atenas teve grande importancia em tal mudança? Explique.
4. Se olharmos para o ser humano através da filosofia, podemos nos perguntar: O que é natural (inato) e o que é socialmente determinado em seu comportamento? Explique qual seria a resposta da filosofia para essa questão.
5. Sócrates foi um dos mais importantes personagens da história da filosofia. Por que?
2. Qual foi o gupo de filósofos que teve participação direta nessa mudança?
3. Por que podemos dizer que a cidade de Atenas teve grande importancia em tal mudança? Explique.
4. Se olharmos para o ser humano através da filosofia, podemos nos perguntar: O que é natural (inato) e o que é socialmente determinado em seu comportamento? Explique qual seria a resposta da filosofia para essa questão.
5. Sócrates foi um dos mais importantes personagens da história da filosofia. Por que?
Sócrates
“Quem era Sócrates?”
Sócrates (470-399 a.C.) é talvez a personagem mais enigmática de toda a história da filosofia. Não escreveu uma única linha. Apesar disso, pertence ao número dos que exerceram maior influência no
pensamento europeu. O fato de ser conhecido, mesmo por quem não possui muitos conhecimentos de filosofia, tem provavelmente a ver com a sua morte trágica.
Sabemos que nasceu em Atenas e que aí passou a sua vida, principalmente nas praças e nas ruas, onde conversava com todo o tipo de gente. Achava que os campos e as árvores não lhe podiam ensinar nada.
Por vezes, ficava longas horas absorto em reflexão profunda.
Ainda no seu tempo, era considerado uma pessoa enigmática e após a sua morte foi considerado o precursor das mais diversas orientações filosóficas. E precisamente por ser tão enigmático e ambíguo, variadíssimas orientações o podiam reivindicar.
Sabe-se que era muito feio. Era pequeno e gordo, e tinha olhos salientes e um nariz achatado. Mas interiormente, dizia-se, era um homem maravilhoso, nunca se poderia encontrar alguém igual a ele.
No entanto, foi condenado à morte devido à sua atividade filosófica.
Conhecemos a vida de Sócrates principalmente através de Platão, que era seu discípulo, também ele um dos maiores filósofos da história. Platão escreveu muitos diálogos - ou conversas filosóficas -nas quais faz participar Sócrates.
Quando Platão põe as palavras na boca de Sócrates, não podemos dizer com certeza que Sócrates as tivesse verdadeiramente pronunciado. Por isso, não é fácil distinguir a doutrina de Sócrates da de Platão. Este problema é válido, também, para muitas outras personalidades históricas que não deixaram fontes
escritas. O exemplo mais famoso é obviamente Jesus. Não podemos ter a certeza de que o "Jesus histórico" tenha dito, de fato, aquilo que Mateus ou Lucas puseram na sua boca.
Da mesma forma, permanecerá sempre um enigma aquilo que o "Sócrates histórico" disse realmente.
Quem era "realmente" Sócrates não é muito importante. É principalmente o seu retrato por Platão que inspira os pensadores ocidentais de há quase dois mil e quatrocentos anos.
“A arte do diálogo”
O que distinguia, na verdade, a atividade de Sócrates era o seu desejo de não ensinar os homens. Em vez disso, parecia querer ele mesmo aprender com o seu interlocutor. Assim, não ensinava como um vulgar professor de escola: dialogava.
Mas não se teria tornado um filósofo famoso se apenas tivesse escutado os seus interlocutores. Também não teria sido condenado à morte. E, principalmente no início, apenas punha questões. Alegava, humildemente, nada saber. No decurso do diálogo, levava freqüentemente os outros a reconhecerem os pontos fracos das suas reflexões. Podia suceder então que o interlocutor fosse encostado à parede e tivesse de reconhecer, por fim, o que era o justo e o injusto.
Diz-se que a mãe de Sócrates era parteira, e Sócrates comparava a sua atividade à arte da obstetrícia.
Não é a parteira que dá à luz a criança, ela apenas está presente e ajuda a mãe. Sócrates compreendeu também que a sua tarefa era ajudar os homens a "parir" o saber correto, porque o verdadeiro saber tem de vir de dentro e não pode ser enxertado. Só o conhecimento que vem do interior é a verdadeira "inteligência".
Vou precisar: a capacidade de dar à luz crianças é uma faculdade natural. Da mesma forma, todos os homens podem compreender as verdades filosóficas, usando simplesmente a razão. Quando alguém "recorre à razão", retira qualquer coisa de si mesmo. Precisamente por se fingir ignorante, Sócrates obrigava as pessoas a usarem a razão. Sócrates podia simular ignorância ou parecer mais estúpido do que na realidade era: a famosa “ironia socrática”.
Desta forma, ele conseguia sempre descobrir os pontos fracos na forma de pensar dos atenienses. Isto podia passar-se no centro de uma praça, ou seja, em público. Um encontro com Sócrates podia levar o interlocutor a fazer papel de estúpido, ou a ser ridicularizado perante uma grande assistência.
Por isso, não é de espantar que ele se tivesse tornado incômodo e muito irritante - principalmente para aqueles que detinham o poder. Sócrates dizia que Atenas era como um cavalo indolente, e ele era uma espécie de pernilongo que lhe picava o flanco para o manter desperto.
“Uma voz divina”
Sócrates picava os seus próximos no flanco, não tendo, porém, a intenção de os atormentar. Havia algo nele que não o deixava agir de outra forma. Repetia freqüentemente que ouvia interiormente uma voz divina. Sócrates insurgia-se, por exemplo, com a condenação de pessoas à morte. Além disso, recusava-se a denunciar inimigos políticos. Por fim, isso iria custar-lhe a vida.
No ano de 399 a.C. foi acusado de "corromper a juventude" e de "inventar novos deuses". Por uma maioria apertada, foi declarado culpado por um júri de 500 membros. Podia ter pedido clemência. Poderia, pelo menos, ter salvado a sua vida, se estivesse disposto a deixar Atenas. Mas se o tivesse feito, não teria sido Sócrates, porque a própria consciência - e a verdade - eram mais importantes do que a vida. Insistia que só agira para o bem do Estado, mas, mesmo assim, foi condenado à morte. Pouco tempo depois, e em presença dos seus amigos mais próximos, bebeu uma taça de cicuta.
“Um curinga em Atenas”
Sócrates era um contemporâneo dos sofistas. Como eles, preocupava-se com o homem e com a vida humana, não com os problemas dos filósofos da natureza. Um filósofo romano - Cícero – disse alguns séculos mais tarde que Sócrates trouxera a filosofia do céu para a terra, a introduzira nas cidades e nas casas e que tinha forçado os homens a refletirem sobre a vida e os costumes, o bem e o mal.
Mas Sócrates diferia dos sofistas num ponto importante. Não se considerava um sofista - uma pessoa instruída ou sábia. Ao contrário dos sofistas, não pedia remuneração pelo seu ensino.
Não, Sócrates denominava-se filósofo, no sentido mais genuíno do termo. Um "filósofo" é, na realidade, um "amante da sabedoria", alguém que aspira a adquirir a sabedoria.
Os sofistas eram pagos pelas suas exposições mirabolantes e esses "sofistas" estiveram presentes durante toda a história. Refiro-me a todos os mestres-escola ou sabichões que estão satisfeitos com o seu
pouco saber ou que se gabam de saber muito acerca daquilo que, na realidade, não conhecem. Um filósofo apercebe-se bem que, no fundo, sabe muito pouco. Precisamente por isso ele procura sempre atingir o verdadeiro conhecimento. Por isso, Sócrates era um homem extraordinário. Sabia claramente que nada sabia acerca da vida e do mundo. E mais importante ainda: o fato de saber tão pouco atormentava-o.
Um filósofo é, portanto, alguém que reconhece que há muitas coisas que não entende. E isso aflige-o. Deste ponto de vista, é porém mais sábio que todos os que se gabam do seu pretenso saber.
"A pessoa mais sábia é aquela que sabe que não sabe", como eu disse. O próprio Sócrates dizia que sabia apenas uma coisa, isto é, que nada sabia. Presta atenção a isto, porque mesmo entre filósofos esta declaração é uma coisa rara. Além disso, pode ser perigoso declará-lo publicamente. Aqueles que perguntam são sempre os mais perigosos. Não é perigoso responder. Uma simples pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas.
Sócrates não tinha certezas absolutas, nem era indiferente. Sabia apenas que nada sabia - e isso preocupava-o, por isso se tornou filósofo - uma pessoa que não desiste e que procura incansavelmente o saber.
Conta-se que uma vez um ateniense perguntou ao oráculo de Delfos quem era o homem mais sábio de Atenas. O oráculo respondeu: Sócrates. Quando Sócrates soube disso ficou verdadeiramente admirado. Foi imediatamente para a cidade e procurou alguém que fosse tido por ele e por outros como sábio. Mas quando se provou que esse homem não conseguia responder com clareza às suas perguntas, Sócrates reconheceu por fim que o oráculo tinha razão.
Para Sócrates, era importante encontrar um fundamento seguro para o nosso conhecimento. Acreditava que esse fundamento residia na razão humana. Devido à sua forte convicção na razão humana, ele era um racionalista.
O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
Atenas e os Sofistas
Por volta de 450 a.C., Atenas tornou-se o centro cultural do mundo grego. A filosofia também tomou então uma orientação nova. Os filósofos da natureza eram, principalmente, investigadores do mundo físico.
Ocupam conseqüentemente um lugar importante na história das ciências. Em Atenas, o interesse concentrou-se então mais no homem e no seu lugar na sociedade.
Em Atenas desenvolvia-se progressivamente uma democracia com assembléias populares e tribunais. Uma das condições para a instauração da democracia exigia que os homens recebessem instrução suficiente para poderem participar na vida política. Também nos dias de hoje vemos que uma jovem democracia precisa do esclarecimento popular. Entre os atenienses isso significava, principalmente, dominar a retórica.
Vindo das colônias gregas, um grupo de professores itinerantes e de filósofos afluiu então a Atenas. Chamavam-se sofistas. A palavra "sofista" designa uma pessoa sábia ou erudita. Em Atenas, os sofistas ganhavam o seu sustento ensinando os cidadãos.
Os sofistas tinham uma notável semelhança com os filósofos da natureza, pois também eles eram críticos relativamente aos mitos tradicionais. Mas, simultaneamente, os sofistas recusavam tudo o que lhes parecia ser especulação filosófica desnecessária.
Achavam que mesmo que houvesse resposta para muitas questões filosóficas, os homens nunca poderiam encontrar explicações verdadeiramente seguras para os enigmas da natureza e do universo. Em filosofia, este ponto de vista é designado por “ceticismo”.
Mas apesar de não podermos encontrar resposta para todos os enigmas da natureza, sabemos que somos homens e que devemos aprender como viver em comunidade. Os sofistas interessavam-se pelo homem e pelo seu lugar na sociedade.
"O homem é a medida de todas as coisas", dizia o sofista Protágoras (cerca de 487- 420 a.C.). Queria dizer que a justiça e a injustiça, o bem e o mal devem ser sempre avaliados em função das necessidades dos homens. À pergunta se acreditava nas divindades gregas, respondeu: "sobre os deuses nada posso dizer! Porque muitas coisas nos impedem que o saibamos: a dificuldade do problema e a brevidade da vida humana". Chamamos “agnóstico” àquele que diz não poder afirmar com segurança se Deus existe ou não.
Os sofistas faziam com freqüência longas viagens, tomando assim conhecimento de vários sistemas de governo.
Os usos e os costumes, e as leis das cidades-estado variavam muito. Partindo dessas experiências, os sofistas iniciaram em Atenas uma discussão sobre o que era estabelecido pela natureza e o que era imposto pela sociedade. Desta forma, criaram na cidade-estado de Atenas as bases para uma crítica social. Podiam, por exemplo, mostrar que uma expressão como "pudor natural" não era admissível, porque se o pudor fosse natural, teria de ser inato.Mas é inato - ou foi a sociedade que o criou? Para pessoas que viajaram muito, a resposta tinha de ser simplesmente: não é natural - ou inata -a vergonha de se mostrar nu. Pudor - ou a ausência de pudor - tem a ver, principalmente, com os usos e os costumes numa sociedade.
O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
Ocupam conseqüentemente um lugar importante na história das ciências. Em Atenas, o interesse concentrou-se então mais no homem e no seu lugar na sociedade.
Em Atenas desenvolvia-se progressivamente uma democracia com assembléias populares e tribunais. Uma das condições para a instauração da democracia exigia que os homens recebessem instrução suficiente para poderem participar na vida política. Também nos dias de hoje vemos que uma jovem democracia precisa do esclarecimento popular. Entre os atenienses isso significava, principalmente, dominar a retórica.
Vindo das colônias gregas, um grupo de professores itinerantes e de filósofos afluiu então a Atenas. Chamavam-se sofistas. A palavra "sofista" designa uma pessoa sábia ou erudita. Em Atenas, os sofistas ganhavam o seu sustento ensinando os cidadãos.
Os sofistas tinham uma notável semelhança com os filósofos da natureza, pois também eles eram críticos relativamente aos mitos tradicionais. Mas, simultaneamente, os sofistas recusavam tudo o que lhes parecia ser especulação filosófica desnecessária.
Achavam que mesmo que houvesse resposta para muitas questões filosóficas, os homens nunca poderiam encontrar explicações verdadeiramente seguras para os enigmas da natureza e do universo. Em filosofia, este ponto de vista é designado por “ceticismo”.
Mas apesar de não podermos encontrar resposta para todos os enigmas da natureza, sabemos que somos homens e que devemos aprender como viver em comunidade. Os sofistas interessavam-se pelo homem e pelo seu lugar na sociedade.
"O homem é a medida de todas as coisas", dizia o sofista Protágoras (cerca de 487- 420 a.C.). Queria dizer que a justiça e a injustiça, o bem e o mal devem ser sempre avaliados em função das necessidades dos homens. À pergunta se acreditava nas divindades gregas, respondeu: "sobre os deuses nada posso dizer! Porque muitas coisas nos impedem que o saibamos: a dificuldade do problema e a brevidade da vida humana". Chamamos “agnóstico” àquele que diz não poder afirmar com segurança se Deus existe ou não.
Os sofistas faziam com freqüência longas viagens, tomando assim conhecimento de vários sistemas de governo.
Os usos e os costumes, e as leis das cidades-estado variavam muito. Partindo dessas experiências, os sofistas iniciaram em Atenas uma discussão sobre o que era estabelecido pela natureza e o que era imposto pela sociedade. Desta forma, criaram na cidade-estado de Atenas as bases para uma crítica social. Podiam, por exemplo, mostrar que uma expressão como "pudor natural" não era admissível, porque se o pudor fosse natural, teria de ser inato.Mas é inato - ou foi a sociedade que o criou? Para pessoas que viajaram muito, a resposta tinha de ser simplesmente: não é natural - ou inata -a vergonha de se mostrar nu. Pudor - ou a ausência de pudor - tem a ver, principalmente, com os usos e os costumes numa sociedade.
O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo
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