Santo Agostinho
viveu entre 354 e 430. Na vida deste homem podemos estudar a passagem da
Antiguidade tardia ao início da Idade Média.
Santo Agostinho
nasceu na vila de Tagaste, no norte de África, mas com dezesseis anos foi
estudar em Cartago. Mais tarde, visitou Roma e Milão e passou os últimos anos da
sua vida como bispo de Hipona, a trinta ou quarenta quilômetros a oeste de
Cartago.
Mas ele não foi
sempre cristão. Santo Agostinho conheceu muitas correntes filosóficas e religiosas
antes de se converter ao cristianismo.
Durante algum
tempo, foi “maniqueu”. Os maniqueus pertenciam a uma seita típica da
Antiguidade tardia. Proclamavam uma teoria da salvação em parte religiosa e em parte
filosófica. Dividiam o mundo em bem e mal, luz e trevas, espírito e matéria.
Através do seu espírito, os homens podiam elevar-se acima do mundo material e
deste modo criar a base para a salvação da sua alma. Mas a rigorosa separação
entre o bem e o mal não dava descanso a Santo Agostinho. O jovem Agostinho
ocupava-se principalmente com aquilo a que costumamos
chamar "o problema do mal". Por este problema, devemos entender a questão
da origem do mal.
Durante algum
tempo, ele foi influenciado pela filosofia estóica, e os estóicos negavam uma
separação clara entre o bem e o mal. Mas acima de tudo, Santo Agostinho foi influenciado
por uma outra corrente filosófica importante da Antiguidade tardia – o neoplatonismo,
que defendia que tudo o que existia era de natureza divina.
Primeiro que
tudo, tornou-se cristão, mas o cristianismo de Santo Agostinho é, em grande
parte, influenciado pelo pensamento platônico. E por isso, não há uma ruptura
dramática com a filosofia grega quando entramos na Idade Média cristã. Boa parte
da filosofia grega foi levada para a nova época por padres da Igreja como Santo
Agostinho.
Ele achava-se
obviamente cem por cento cristão. Mas não via nenhuma contradição profunda
entre o cristianismo e a filosofia platônica. Os paralelismos entre a filosofia
de Platão e a doutrina cristã pareciam-lhe tão evidentes que se questionava se Platão
não poderia ter conhecido pelo menos partes do Antigo Testamento, o que é naturalmente muito duvidoso. Podemos, pelo
contrário, afirmar que Santo Agostinho "cristianizou" Platão.
Mostrou que há
limites para o alcance da razão em questões religiosas. O cristianismo é também
um mistério divino ao qual só podemos chegar através da fé. Mas quando
acreditarmos no cristianismo, Deus "iluminará" a nossa alma, e então
obteremos uma espécie de saber sobrenatural acerca de Deus. O próprio Santo
Agostinho sentira que a filosofia não podia ser ilimitada. A sua alma só
encontrou descanso quando ele se tornou cristão. "Agitado está o nosso
coração, enquanto não repousa em Ti" escreveu.
Santo Agostinho
explica que Deus criou o mundo do nada, e isso é uma idéia bíblica. Os gregos
inclinavam-se mais para a idéia de que o mundo existira sempre. Mas, segundo S.
Agostinho, antes de Deus ter criado o mundo as "idéias" existiam no pensamento
de Deus. Ele atribuiu as idéias eternas a Deus e salvou deste modo a concepção platônica
da idéia eterna.
Mas isso também
mostra como Santo Agostinho e muitos outros padres da Igreja se esforçaram por
conciliar o pensamento grego e o hebraico.
De certo modo, eram cidadãos de duas culturas. Na sua concepção do mal,
também recorre ao neoplatonismo. Achava, como Plotino, que o mal consistia na
"ausência" de Deus. O mal não tem uma existência própria, é algo que
não é, porque a Criação de Deus é apenas boa. O mal surge através da
desobediência dos homens, segundo Santo Agostinho. Ou, usando as suas próprias
palavras: a "boa vontade" é "obra de Deus", a "má
vontade" é a "negação da obra de Deus".
Santo Agostinho
explica que entre Deus e o mundo existe um abismo insuperável. Baseia-se no
fundamento bíblico e rejeita a teoria de Plotino, segundo a qual tudo é uno.
Mas Santo Agostinho também salienta que o homem é um ser espiritual. Possui um
corpo material - que pertence ao mundo físico e é corrompido pelos agentes naturais
-, mas ele também tem uma alma que pode conhecer Deus.
Segundo Santo
Agostinho, toda a geração humana foi condenada após o pecado original. Apesar
disso, Deus decidiu que alguns homens deviam ser poupados à condenação eterna.
Mas, nesse
ponto, Santo Agostinho nega que o homem tenha direito a criticar Deus. Sustenta
o que Paulo escreveu na sua "Epístola aos Romanos": "Ó homem,
quem és tu para disputares com Deus? Acaso uma obra também diz a quem a fez:
porque é que me fizeste assim? Porventura um oleiro não tem poder para fazer da
mesma massa um vaso para bom uso e outro para uso vil?".
Para Santo
Agostinho, nenhum homem é digno da salvação de Deus. No entanto, Deus escolheu
alguns que devem ser salvos da condenação. Para ele, não é pois um segredo quem
é que deve ser salvo e quem é que deve ser condenado. Isso está determinado previamente.
Logo, nós somos barro nas mãos de Deus. Estamos completamente dependentes da
Sua graça.
Mas Santo
Agostinho não retira ao homem a responsabilidade pela sua própria vida.
Segundo o seu
ponto de vista, nós devemos viver de modo a podermos saber que pertencemos ao
número dos eleitos. Não nega que tenhamos livre arbítrio. Só que Deus já "previu"
como é que vamos viver.
Com a teologia
de Santo Agostinho afastamo-nos do humanismo de Atenas.
Mas não era
Santo Agostinho que dividia a humanidade em dois grupos. Ele baseia-se na doutrina
da Bíblia acerca da salvação e da condenação. Na sua grande obra A Cidade de Deus,
explica-o mais exatamente.
A expressão
"cidade de Deus" ou "reino de Deus" vem da Bíblia e da
mensagem de Jesus. Santo Agostinho acreditava que a história trata do modo como
o combate entre a "cidade de Deus" e a "cidade terrena" é
conduzido. Estas duas cidades não são Estados políticos distintos um do outro.
Lutam pelo poder em cada homem. A cidade de Deus está presente na Igreja e a
cidade terrena nos Estados políticos - por exemplo, no Império Romano, que
começou a desagregar-se precisamente na época de Santo Agostinho. Esta
concepção tornou-se cada vez mais evidente à medida que a Igreja e o Estado
lutavam pelo poder durante toda a Idade Média.
"Não há
salvação fora da Igreja", dizia-se. A cidade de Deus de Santo Agostinho era
inclusivamente comparada à Igreja como instituição. Só durante a Reforma, no
século XVI, se levantou um protesto contra a idéia de que o homem tinha que percorrer
o caminho da Igreja para obter a graça divina.
Também podemos
notar que Santo Agostinho foi o primeiro dos nossos filósofos a incluir a
história na sua filosofia. A aceitação de um combate entre o bem e o mal não
era nada de novo. A novidade em Santo Agostinho é que este combate é disputado
na história.
Deste ponto de
vista, não encontramos nele muito platonismo. Em vez disso, apoia-se firmemente
na concepção linear da história que encontramos no Antigo Testamento. É que para Santo
Agostinho Deus precisa de toda a história para erigir a sua "cidade de
Deus". A história é
necessária para instruir os homens e destruir o mal. Em certo passo, Santo
Agostinho afirma
que a providência divina dirige a história da humanidade desde Adão até ao fim da
história, tal como a história de um único homem que se vai desenrolando progressivamente
desde a infância até à velhice.
Jostein Gaarder (O MUNDO DE SOFIA Uma Aventura na Filosofia)
Tradução de: Catarina BeloEDITORIAL PRESENÇA
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