quarta-feira, 23 de maio de 2012

Platão - “O mundo das idéias”


Empédocles e Demócrito já tinham mostrado que todos os fenômenos na natureza "fluem", mas que apesar disso há "algo" que nunca se transforma (as "quatro raízes" ou os "átomos"). Platão confronta-se igualmente com esta problemática - mas de uma forma completamente diferente.
Platão achava que tudo o que podemos tocar e sentir na natureza "flui". Não há, portanto, nenhum elemento eterno. Tudo o que pertence ao "mundo sensível" é composto por uma matéria que o tempo consome. Mas ao mesmo tempo, tudo é constituído por uma forma intemporal que é eterna e imutável.
Porque é que os cavalos são iguais? Talvez penses que eles não o são de todo. Mas há algo que é comum a todos os cavalos, algo que permite que nunca tenhamos problemas em reconhecer um cavalo.
Um cavalo particular "flui", obviamente. Pode ser velho e coxo, com o tempo ficará também doente, e morre. Mas a verdadeira "forma de cavalo" é eterna e imutável. Assim, o eterno e imutável não é nenhum "elemento primordial". O eterno e o imutável são modelos espirituais ou abstratos, a partir dos quais se formam todos os fenômenos. 
Vou ser mais preciso: os pré-socráticos tinham dado uma explicação verdadeiramente útil para as transformações na natureza, sem ter que pressupor que algo se "transforma" efetivamente. Na natureza há partículas minúsculas, eternas e constantes que não entram em desagregação, segundo eles. Pois bem! Mas não tinham nenhuma explicação aceitável para o modo como estas partículas minúsculas que eram elementos constituintes de um cavalo podiam produzir quatro ou cinco séculos mais tarde um cavalo totalmente novo! Ou talvez um elefante, ou um crocodilo. Platão quer dizer que os átomos de Demócrito nunca se podem tornar um "crocofonte" ou um "eledilo". E foi precisamente este o ponto de partida das suas reflexões filosóficas.
Imaginemos agora que cais do espaço sideral para a terra e que nunca tinhas visto uma padaria. Deparas com uma padaria atraente - e vês, num tabuleiro, cinqüenta biscoitos em forma de homem, exatamente iguais. Calculo que coçarias a cabeça e te questionarias como é que podiam ser todos exatamente iguais. É fácil de imaginar que a um falta um braço, um outro perdeu talvez um bocado da cabeça, e o terceiro tem uma barriga demasiado gorda. Mas depois de uma reflexão fundada chegas à conclusão de que todos os biscoitos possuem um denominador comum. Apesar de nenhum deles ser totalmente perfeito, tens a idéia de que têm que ter uma origem comum. Compreendes que todos os biscoitos foram feitos a partir de uma mesma forma.
Se resolveste este problema sozinho, resolveste um problema filosófico exatamente da mesma forma que Platão. Como a maior parte dos filósofos, ele "caiu do espaço sideral", por assim dizer. (Ele instalou-se na parte mais alta de um dos pêlos finos da pelagem do coelho). Ele admirou-se como todos os fenômenos na natureza podem ser tão semelhantes entre si, e chegou então à conclusão de que "acima" ou "por detrás" de tudo o que vemos à nossa volta há um número limitado de formas. A estas formas chamou Platão idéias. Por detrás de todos os cavalos, porcos e homens há a "idéia cavalo", a "idéia porco" e a "idéia homem". (E por isso, a referida pastelaria pode ter, além de biscoitos em forma de homem, biscoitos em forma de porco e de cavalo, visto que uma pastelaria decente tem geralmente variadíssimas formas. Mas para cada tipo de biscoito é suficiente uma única forma). Conclusão: Platão defendia uma realidade própria por detrás do "mundo sensível".
A esta realidade chamava ele “o mundo das idéias”. Encontramos aqui os "modelos" eternos e imutáveis, os “arquétipos” por detrás dos diversos fenômenos que se nos deparam na natureza. Designamos esta importante concepção por “teoria das idéias” de Platão.
Platão achava que tudo o que vemos à nossa volta na natureza, sim, tudo o que podemos agarrar e tocar pode ser comparado com a bola de sabão. Porque nada do que existe no mundo dos sentidos dura. Tu sabes obviamente que todos os homens e animais mais tarde ou mais cedo morrem e entram em decomposição.
Mesmo um bloco de mármore se desagrega lentamente. Para Platão, nunca podemos ter um saber seguro acerca de algo que se transforma. Daquilo que pertence ao mundo sensível - e que nós podemos, portanto, agarrar e tocar -, temos apenas opiniões incertas ou suposições. Só podemos ter um saber verdadeiro
daquilo que conhecemos com a razão.  

Uma alma imortal
 
Vimos que, segundo Platão, a realidade está dividida em duas partes. Uma parte é “o mundo sensível” - de que só podemos atingir um conhecimento impreciso e imperfeito, e onde usamos os nossos cinco (imprecisos e imperfeitos) sentidos. A característica do mundo dos sentidos é que "tudo flui" e conseqüentemente nada possui estabilidade. Nada é no mundo dos sentidos, existe apenas um conjunto de coisas que nascem e perecem.
A outra parte é “o mundo das idéias” - de que podemos alcançar um saber certo usando a razão. Este mundo das idéias não pode ser conhecido através dos sentidos. Em compensação, as idéias (ou formas) são eternas e imutáveis.
Conseqüentemente, para Platão, o homem também é um ser dividido em duas partes. Temos um corpo que "flui". Ele está indissoluvelmente ligado ao mundo sensível e sofre o mesmo destino que o sensível (por exemplo, uma bola de sabão). Todos os nossos sentidos estão ligados ao corpo e são de pouca confiança. Mas nós possuímos também uma “alma imortal” - ela é a sede da razão. Uma vez que a alma não é material, pode observar o mundo das idéias.
Para Platão, a alma já existia antes de se ter estabelecido no nosso corpo: antigamente, a alma estava no mundo das idéias. (Estava junto às formas dos biscoitos em cima do armário). Mas logo que a alma acorda num corpo humano, esquece-se das idéias perfeitas. Inicia-se então um processo espantoso: quando o homem se apercebe das formas na natureza, emerge progressivamente na alma uma vaga recordação. O homem vê um cavalo - mas um cavalo imperfeito (sim, um cavalo em biscoito!), e isso é o suficiente para despertar na alma uma recordação vaga do cavalo perfeito que a alma viu outrora no mundo das idéias. Com isto, surge igualmente uma saudade, um desejo da verdadeira sede da alma. Platão chamava a este desejo Eros - ou seja- amor.

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo

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