segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sócrates


“Quem era Sócrates?”

Sócrates (470-399 a.C.) é talvez a personagem mais enigmática de toda a história da filosofia. Não escreveu uma única linha. Apesar disso, pertence ao número dos que exerceram maior influência no
pensamento europeu. O fato de ser conhecido, mesmo por quem não possui muitos conhecimentos de filosofia, tem provavelmente a ver com a sua morte trágica.
Sabemos que nasceu em Atenas e que aí passou a sua vida, principalmente nas praças e nas ruas, onde conversava com todo o tipo de gente. Achava que os campos e as árvores não lhe podiam ensinar nada.
Por vezes, ficava longas horas absorto em reflexão profunda.
Ainda no seu tempo, era considerado uma pessoa enigmática e após a sua morte foi considerado o precursor das mais diversas orientações filosóficas. E precisamente por ser tão enigmático e ambíguo, variadíssimas orientações o podiam reivindicar.
Sabe-se que era muito feio. Era pequeno e gordo, e tinha olhos salientes e um nariz achatado. Mas interiormente, dizia-se, era um homem maravilhoso, nunca se poderia encontrar alguém igual a ele.
No entanto, foi condenado à morte devido à sua atividade filosófica.
Conhecemos a vida de Sócrates principalmente através de Platão, que era seu discípulo, também ele um dos maiores filósofos da história. Platão escreveu muitos diálogos - ou conversas filosóficas -nas quais faz participar Sócrates.
Quando Platão põe as palavras na boca de Sócrates, não podemos dizer com certeza que Sócrates as tivesse verdadeiramente pronunciado. Por isso, não é fácil distinguir a doutrina de Sócrates da de Platão. Este problema é válido, também, para muitas outras personalidades históricas que não deixaram fontes
escritas. O exemplo mais famoso é obviamente Jesus. Não podemos ter a certeza de que o "Jesus histórico" tenha dito, de fato, aquilo que Mateus ou Lucas puseram na sua boca.
Da mesma forma, permanecerá sempre um enigma aquilo que o "Sócrates histórico" disse realmente.
Quem era "realmente" Sócrates não é muito importante. É principalmente o seu retrato por Platão que inspira os pensadores ocidentais de há quase dois mil e quatrocentos anos.

“A arte do diálogo”

O que distinguia, na verdade, a atividade de Sócrates era o seu desejo de não ensinar os homens. Em vez disso, parecia querer ele mesmo aprender com o seu interlocutor. Assim, não ensinava como um vulgar professor de escola: dialogava.
Mas não se teria tornado um filósofo famoso se apenas tivesse escutado os seus interlocutores. Também não teria sido condenado à morte. E, principalmente no início, apenas punha questões. Alegava, humildemente, nada saber. No decurso do diálogo, levava freqüentemente os outros a reconhecerem os pontos fracos das suas reflexões. Podia suceder então que o interlocutor fosse encostado à parede e tivesse de reconhecer, por fim, o que era o justo e o injusto.
Diz-se que a mãe de Sócrates era parteira, e Sócrates comparava a sua atividade à arte da obstetrícia.
Não é a parteira que dá à luz a criança, ela apenas está presente e ajuda a mãe. Sócrates compreendeu também que a sua tarefa era ajudar os homens a "parir" o saber correto, porque o verdadeiro saber tem de vir de dentro e não pode ser enxertado. Só o conhecimento que vem do interior é a verdadeira "inteligência".
Vou precisar: a capacidade de dar à luz crianças é uma faculdade natural. Da mesma forma, todos os homens podem compreender as verdades filosóficas, usando simplesmente a razão. Quando alguém "recorre à razão", retira qualquer coisa de si mesmo. Precisamente por se fingir ignorante, Sócrates obrigava as pessoas a usarem a razão. Sócrates podia simular ignorância ou parecer mais estúpido do que na realidade era: a famosa “ironia socrática”.
Desta forma, ele conseguia sempre descobrir os pontos fracos na forma de pensar dos atenienses. Isto podia passar-se no centro de uma praça, ou seja, em público. Um encontro com Sócrates podia levar o interlocutor a fazer papel de estúpido, ou a ser ridicularizado perante uma grande assistência.
Por isso, não é de espantar que ele se tivesse tornado incômodo e muito irritante - principalmente para aqueles que detinham o poder. Sócrates dizia que Atenas era como um cavalo indolente, e ele era uma espécie de pernilongo que lhe picava o flanco para o manter desperto.

“Uma voz divina”

Sócrates picava os seus próximos no flanco, não tendo, porém, a intenção de os atormentar. Havia algo nele que não o deixava agir de outra forma. Repetia freqüentemente que ouvia interiormente uma voz divina. Sócrates insurgia-se, por exemplo, com a condenação de pessoas à morte. Além disso, recusava-se a denunciar inimigos políticos. Por fim, isso iria custar-lhe a vida.
No ano de 399 a.C. foi acusado de "corromper a juventude" e de "inventar novos deuses". Por uma maioria apertada, foi declarado culpado por um júri de 500 membros. Podia ter pedido clemência. Poderia, pelo menos, ter salvado a sua vida, se estivesse disposto a deixar Atenas. Mas se o tivesse feito, não teria sido Sócrates, porque a própria consciência - e a verdade - eram mais importantes do que a vida. Insistia que só agira para o bem do Estado, mas, mesmo assim, foi condenado à morte. Pouco tempo depois, e em presença dos seus amigos mais próximos, bebeu uma taça de cicuta.

“Um curinga em Atenas”

Sócrates era um contemporâneo dos sofistas. Como eles, preocupava-se com o homem e com a vida humana, não com os problemas dos filósofos da natureza. Um filósofo romano - Cícero – disse alguns séculos mais tarde que Sócrates trouxera a filosofia do céu para a terra, a introduzira nas cidades e nas casas e que tinha forçado os homens a refletirem sobre a vida e os costumes, o bem e o mal.
Mas Sócrates diferia dos sofistas num ponto importante. Não se considerava um sofista - uma pessoa instruída ou sábia. Ao contrário dos sofistas, não pedia remuneração pelo seu ensino.
Não, Sócrates denominava-se filósofo, no sentido mais genuíno do termo. Um "filósofo" é, na realidade, um "amante da sabedoria", alguém que aspira a adquirir a sabedoria.
 Os sofistas eram pagos pelas suas exposições mirabolantes e esses "sofistas" estiveram presentes durante toda a história. Refiro-me a todos os mestres-escola ou sabichões que estão satisfeitos com o seu
pouco saber ou que se gabam de saber muito acerca daquilo que, na realidade, não conhecem. Um filósofo apercebe-se bem que, no fundo, sabe muito pouco. Precisamente por isso ele procura sempre atingir o verdadeiro conhecimento. Por isso, Sócrates era um homem extraordinário. Sabia claramente que nada sabia acerca da vida e do mundo. E mais importante ainda: o fato de saber tão pouco atormentava-o.
Um filósofo é, portanto, alguém que reconhece que há muitas coisas que não entende. E isso aflige-o. Deste ponto de vista, é porém mais sábio que todos os que se gabam do seu pretenso saber.
"A pessoa mais sábia é aquela que sabe que não sabe", como eu disse. O próprio Sócrates dizia que sabia apenas uma coisa, isto é, que nada sabia. Presta atenção a isto, porque mesmo entre filósofos esta declaração é uma coisa rara. Além disso, pode ser perigoso declará-lo publicamente. Aqueles que perguntam são sempre os mais perigosos. Não é perigoso responder. Uma simples pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas.
Sócrates não tinha certezas absolutas, nem era indiferente. Sabia apenas que nada sabia - e isso preocupava-o, por isso se tornou filósofo - uma pessoa que não desiste e que procura incansavelmente o saber.
Conta-se que uma vez um ateniense perguntou ao oráculo de Delfos quem era o homem mais sábio de Atenas. O oráculo respondeu: Sócrates. Quando Sócrates soube disso ficou verdadeiramente admirado.  Foi imediatamente para a cidade e procurou alguém que fosse tido por ele e por outros como sábio. Mas quando se provou que esse homem não conseguia responder com clareza às suas perguntas, Sócrates reconheceu por fim que o oráculo tinha razão.
Para Sócrates, era importante encontrar um fundamento seguro para o nosso conhecimento. Acreditava que esse fundamento residia na razão humana. Devido à sua forte convicção na razão humana, ele era um racionalista.

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia
Jostein Gaarder
Tradução de: Catarina Belo

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